Conteúdos

O Instituto Península publica, apoia e participa de diversas publicações que ajudam a refletir sobre esporte e educação e seus ecossistemas no Brasil e no mundo. Neste espaço, você encontra pesquisas, relatórios, livros, documentos e outras informações gratuitas para baixar e consultar quando quiser.

Veja nossas publicações

Publicações IP

Banco de Práticas Inspiradoras

logo-realizacao

É um acervo de práticas inspiradoras realizadas por professores da rede pública de ensino e que estão vinculadas às dez competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O objetivo é promover uma reflexão mais ampla sobre o papel dos professores, inspirar os docentes a desenvolverem práticas inovadoras e ajudá-los na implementação da Base em suas realidades, bem como valorizar o trabalho destes e tantos outros professores extraordinários pelo Brasil. As práticas, relatadas em formato de artigo e vídeo, foram desenvolvidas por professores de todo o Brasil, finalistas do Prêmio Professores do Brasil 2017. Conheça mais sobre o projeto aqui:


Selecione uma competência

Caso 26: Tabuleiro de respeito (Competência 9)

set 12, 2018, 16:41 by Jucimara Pinto

Professora
: Raquel de Oliveira Campos
Quem é a professora: Licenciada em ciências biológicas com habilitação em biologia, com pós-graduação em biologia forense, leciona na rede estadual há 11 anos e na escola há 4 anos. Foi destaque estadual do Rio de Janeiro, na etapa do ensino médio, na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.
Escola: CE Pedro Álvares Cabral
Municipio: São João de Meriti UF: Rio de Janeiro
Etapa de ensino: Ensino Médio
Ano: 2017
Área de conhecimento: Ciências Biológicas
Componente curricular: Biologia

Download do PDF
ipen_competencia29

Tabuleiro de respeito


illustracao26

Professora de biologia da Baixada Fluminense cria jogo que aumentou interesse de turma do ensino médio pelos estudos, gerou responsabilidade nos jovens e expandiu ambiente de cooperação na comunidade escolar

No curso que fez para lecionar química na rede pública, Raquel de Oliveira Campos, de 37 anos, aprendeu técnicas de gamificação que aplicava para ensinar os elementos dispostos em uma tabela periódica e percebeu que, em sala de aula, o interesse dos estudantes aumentava à medida que aplicava os jogos. Licenciada em biologia, a professora resolveu então inovar criando a própria dinâmica para engajar mais os seus alunos na sua área de formação.

Em 2017, como o projeto político-pedagógico da escola teve como tema “Biomas Brasileiros e Defesa da Vida”, Raquel encontrou a inspiração necessária para uma prática pedagógica que possibilitasse levar de maneira lúdica à turma do 1º ano do ensino médio conteúdos sobre a diversidade de seres vivos, previstos no programa, e permitisse aos estudantes exercitar a empatia, o diálogo e, sobretudo, a cooperação na construção de um jogo dirigido ao aprendizado.

Durante quatro meses, de fevereiro a junho, o projeto “Tabuleiro humano: uma viagem de descobertas pelos biomas brasileiros em defesa da vida”, desenvolvido em uma escola estadual de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, expulsou da sala de aula as expressões de indiferença, por vezes captadas no ar blasé dos jovens, e provocou uma alteração no comportamento da turma.

Antes pouco participativos, os estudantes se engajaram na prática a ponto de mudar a atitude em relação à escola, o que de certo modo funcionou como um remédio contra as faltas, a evasão escolar e o entorno violento do colégio, males que comumente afetam o ensino médio, em especial em regiões metropolitanas.

“Eles saíram desenhando logo de cara (o tabuleiro)... O aluno tem que ver as coisas acontecendo, senão fica entediado com muita facilidade, principalmente o adolescente. Era uma turma muito desanimada”, afirma Raquel.

Foram duas frentes de trabalho principais e simultâneas do projeto. Em uma delas, com o apoio da diretora e a ajuda do professor de artes, foi iniciado o desenho do tabuleiro sobre papelão, em uma área coberta para que não desbotasse com as intempéries. Os alunos compraram papelões e foi formado um tabuleiro de quatro metros quadrados no qual estava contornado o mapa brasileiro dividido conforme os seis biomas do país: Pampa, Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado, Pantanal e Amazônia.

Na outra frente do projeto, em sala de aula, a professora dividiu a turma em seis grupos, pediu que pesquisassem os biomas e expandissem o estudo para assuntos correlatos. A ideia era desenvolver conhecimentos interdisciplinares para que os estudantes ficassem aptos a elaborar perguntas também acerca de aspectos culturais, históricos e linguísticos das regiões brasileiras, além de questões sobre a diversidade biológica encontrada naquelas áreas.

“No primeiro dia, eles não sabiam nem quais eram os biomas brasileiros. Cada grupo ficou com o seu bioma. O espírito do jogo era fazer uma viagem sobre o tema. Quando você viaja por um lugar, aprende muito mais sobre ele, sobre aquele povo, aquela cultura”, diz Raquel. “Apareceram perguntas sobre fauna e flora predominante no bioma, mas também tinha questão sobre museu, evento histórico de uma região, música e dança de um lugar, comida, dialeto, lenda, o tamanho de um hectare em metros quadrados...”, lembra.

Como havia outros conteúdos a serem trabalhados em biologia, a professora pediu que parte das pesquisas fossem feitas em casa. Além das perguntas, os adolescentes tinham também que construir a resposta e quatro alternativas falsas para que fossem lidas no jogo, em formato de quiz. O material pesquisado era debatido em sala de aula. Um dos objetivos centrais do projeto era dar mais responsabilidade aos alunos, algo que faltava à turma. “Eles estavam muito empolgados. A única condição é que fossem feitas por eles. Não deixei que pegassem perguntas prontas na internet”, diz Raquel.

O mapa sobre papelão, já quase pronto, foi totalmente apagado em um sábado aberto a atividades da comunidade, intercorrência que quase comprometeu a sequência da prática. “Eu ia desistir, mas os alunos viraram para mim e falaram ‘a gente fez uma vez e vai fazer de novo’. Eles me convenceram a continuar”, conta Raquel, que nunca ficou sabendo se a “limpeza” daquele mapa fora um dano intencional ou se o tabuleiro fora apagado por simples ignorância do que representava.

Após o percalço, o professor de matemática, que se tornou um parceiro no projeto, ofereceu os horários de aula dele para refazer o desenho. Coube a ele recrutar outra turma do 1º ano para disputar o jogo contra os alunos de Raquel e também ajudar na classificação dos níveis das perguntas, o que decidiria o ritmo de caminhada sobre o tabuleiro. A dezenas de mãos, o mapa do Brasil foi repintado sobre o chão, contando com o auxílio fundamental do pai de uma aluna, que trabalhava com tintas para piso e doou seis garrafas pet de tintas, de cores diferentes. O mutirão de reconstrução deixou o tabuleiro com seis metros quadrados, maior do que o anterior.

“A atitude em relação à escola mudou. Eles começaram a entregar os trabalhos, pararam de faltar e ficaram mais motivados. Como puseram a mão na massa, pegaram mais confiança neles mesmos com o trabalho. Aquela história do ‘eu posso fazer’, ‘eu consigo fazer’”, afirma Raquel. “No meio da preparação, chegou um aluno gaúcho transferido e eles o receberam bem e o integraram ao jogo. Aprendi um monte de coisa sobre o Rio Grande do Sul”, conta.

No dia do tabuleiro humano, realizado no final de junho, os estudantes de Raquel venceram com facilidade a turma adversária, que participou do jogo sem desenvolver a prática pedagógica ao longo do semestre. A comemoração foi intensa, mas o respeito ao outro ficou acima do espírito de competição, relata a professora. “O mais legal foi a atitude deles. O normal é querer passar por cima do outro. Eles ficaram felizes por ter ganho, mas não xingaram a outra turma nem fizeram piadinhas”, lembra Raquel.

Embora não tenha trabalhado com profundidade a valorização da diversidade dos indivíduos e de grupos sociais, a dinâmica construída em torno do jogo favoreceu muito o exercício da cooperação na turma, que tinha uma aluna cadeirante presente em todas as etapas da prática, e deu força ao diálogo. “Eu tinha muita dificuldade de chegar neles. Depois desse jogo, eles se abriram tranquilamente. Fiquei sabendo coisas da vida deles e os puxei para mim até para a matéria de química”, diz a professora.