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Caso 10: Um olhar de esperança (Competência 10)

12/set/2018


Professor:
João Paulo Vicente da Silva
Quem é a professor: Formado em educação física e pedagogia, com pós-graduação em pedagogia do movimento na infância, leciona na rede municipal e na escola há dois anos. Foi destaque estadual do Rio Grande do Norte, na etapa dos anos iniciais do ensino fundamental (4º e 5º anos), na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.

Escola: Centro Infantil Estrela do Mar
Municipio: Extremoz. UF: Rio Grande do Norte
Etapa de ensino: Ensino Fundamental / Anos Iniciais

Ano: 2017
Etapa de ensino: Ensino Fundamental
Área de conhecimento: Linguagens

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Um Olhar de Esperança

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Professor usa as aulas de educação física para inserir estudante com paralisia cerebral no processo pedagógico, com ganhos de autonomia e sociabilidade, e implantar prática sob a perspectiva da educação inclusiva

Quando o cadeirante Renner Luís se transferiu em 2017 para a turma do 5º ano do Centro Infantil Estrela do Mar, em Extremoz, na região metropolitana de Natal (RN), o professor João Paulo Vicente da Silva reconheceu o desafio que tinha pela frente. Diagnosticado com paralisia cerebral, o estudante, então com 15 anos, praticamente não interagia com professores e funcionários da escola nem com os colegas.

João Paulo saiu a pesquisar atividades para as aulas de educação física com o objetivo de integrar o novo aluno. Renner não mexe as pernas, tem comprometida a coordenação motora fina dos membros superiores (mexe os braços, mas não faz o movimento de pinça com os dedos), o que lhe traz muitas dificuldades para escrever, e fala com certa limitação, exigindo atenção especial de seus interlocutores.

Como estratégia inicial, o professor passou a promover brincadeiras e “jogos cooperativos” dos quais Renner pudesse participar e interagir com os colegas. Nesses jogos, os estudantes precisam uns dos outros para concluir um desafio. Como o jovem se locomove na cadeira de rodas sem necessidade de ajuda, conseguiu por exemplo jogar estafeta, pegando a bola de um colega em um ponto do percurso e levando a outro mais adiante, correndo contra o tempo.

O interesse de Renner aumentou e João Paulo percebeu que o aluno teria ganhos sensíveis, em especial de autoestima, sociabilidade e autonomia, se fosse envolvido em atividades físicas que promovessem um atendimento sob a perspectiva da educação inclusiva. O professor passou então a elaborar o projeto “Contribuições da educação física na inclusão das pessoas com paralisia cerebral no ensino regular”, prática pensada para que a escola pudesse ofertar educação especial na diretriz proposta.

Depois de uma pesquisa nesse universo, João Paulo apresentou ao estudante as regras da bocha adaptada, modalidade paralímpica em que o principal objetivo é deixar as bolas arremessadas mais próximas à bola-alvo, superando o adversário nesse ponto.

“A partir daí, Renner começou a desenvolver as atividades junto com a turma com um resultado surpreendente. Foi tão significativo o desenvolvimento dele dentro do esporte que a gente começou a inscrevê-lo nas competições”, relata João Paulo.

Diretamente ligado ao envolvimento nas aulas de educação física, o avanço de Renner foi, ao longo do ano, mudando o olhar da comunidade escolar sobre a inclusão do jovem, promovendo o respeito à diferença e enriquecendo as relações interpessoais. Dentro da sala de aula, começou a sorrir, tornou-se mais participativo e passou a escrever o próprio nome e desenvolver a escrita, o que não fazia antes. “Ele precisava de um processo pedagógico que o trouxesse para a sala de aula”, afirma João Paulo.

O movimento de aproximação com os colegas de turma foi recíproco e a comunicação melhorou. Os demais estudantes se mostravam solidários e queriam apoiá-lo de alguma forma. “Criou-se uma relação tão forte que todo mundo queria ajudar, mesmo sem precisar”, lembra o professor.

Nos corredores da escola, Renner também começou a se socializar mais. Passou a cumprimentar professores, funcionários e até pais de outros alunos. A essa altura, sob a orientação de João Paulo, o adolescente realizava treinos de bocha adaptada para disputar campeonatos paralímpicos e tinha uma intensa rotina na escola, que incluía quatro dias por semana com alguma atividade física.

O treinamento escolar resultou na medalha de terceiro lugar em bocha adaptada nos Jogos Abertos Paralímpicos do Rio Grande do Norte. A conquista deu mais vigor aos vínculos que Renner estabelecera nas aulas. Com frequência, ele passou a ser reconhecido e elogiado pela boa performance esportiva.

Como o próprio professor define, os olhares de “coitadinho” ou de preconceito direcionados ao estudante deram lugar a perspectivas mais inclusivas. “Quando ele começou a participar dos campeonatos, aí todo mundo mudou o olhar e ele passou a ser visto com mais esperança”, relata João Paulo. “Passaram a enxergar nele um sujeito que tem possibilidades e precisa ter oportunidades como qualquer outro.”

Com o resultado esportivo obtido no Estado, Renner foi convidado a disputar no final do ano as Paralimpíadas Escolares, evento organizado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro. Ficou em quinto lugar, em uma chave com 16 atletas. A diretriz dada pelo projeto tornou a escola referência em educação inclusiva, o que gerou mais procura de alunos com deficiência nas classes comuns do ensino regular, segundo o professor.

A prática desenvolvida com Renner nas aulas de educação física foi expandida para toda a rede municipal, com o objetivo de incluir crianças com deficiência por meio do esporte. “O mais relevante de tudo isso foi a interação social e a quebra do preconceito”, diz João Paulo. “Foi ver pessoas da comunidade escolar que mantinham certa distância depois desejarem interação e envolvimento com esse jovem.”