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Caso 12: Horta conecta famílias à escola (Competência 2)

12/set/2018

Professora: Cleide Maria de Souza
Quem é a professora: Formada em pedagogia e licenciada em ciências biológicas, leciona na rede municipal há 15 anos e na escola há 5 anos. Foi destaque estadual do Distrito Federal, na etapa pré-escola, na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.

Escola: Centro de Ensino Fundamental (CEF) Cerâmicas Reunidas Dom Bosco
Municipio: Brasília UF: Distrito Federal
Etapa de ensino: Educação Infantil - Pré-escola

Ano: 2017
Área de conhecimento: -
Componente curricular: -

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Horta Conecta Famílias à Escola

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Em Brasília, cultivo de plantas ao lado da sala de aula para interação com turma da educação infantil gera engajamento de famílias na prática de escola do campo e amplia estímulos para desenvolvimento de crianças

Com formação em ciências biológicas e professora de escola do campo em Planaltina, Brasília, Cleide Maria de Souza, de 40 anos, observou que a interdição por autoridades sanitárias do poço artesiano que levava água à escola poderia ser um gancho para mobilizar as famílias da comunidade, falar sobre os cuidados com os recursos naturais e despertar nos alunos da educação infantil a curiosidade intelectual sobre o tema.

Utilizando-se de seus conhecimentos prévios, a professora levou aos pais dos estudantes a ideia de um projeto de uma pequena horta vertical em área vizinha à sala de aula e obteve o engajamento inicial de que necessitava. Com a ajuda das famílias, o muro próximo à classe foi pintado e instalados dois pallets de madeira, dispostos na vertical sobre uma base com um degrau que tornava a estrutura acessível às crianças. Em garrafas pet cortadas e interligadas, foram plantadas espécies como alface, rúcula, alecrim e hortelã para cultivo dos estudantes ao longo do ano letivo de 2017.

Um grupo no WhatsApp criado pela professora para o mutirão inicial se tornou uma importante ponte entre a sala de aula e a casa dos estudantes. Levadas a explorar a realidade das plantas, as crianças foram motivadas a contarem o que tinham aprendido às famílias, orientadas a registrarem as falas em vídeos curtos, compartilhando-as com a professora e outros pais por meio do aplicativo.

“A criança elaborava uma fala do que ela entendeu”, diz a professora. “Estávamos mobilizando, com a ajuda dos pais, as crianças a fazerem pesquisa, enriquecendo o vocabulário deles, levando-os a formularem ideias e trabalhando a questão oral. Os pais viam os vídeos das outras crianças e iam fazendo também com seus filhos.”

Os estímulos fornecidos em sala de aula, como tinham prosseguimento no ambiente doméstico, aumentaram as curiosidades dos estudantes e os fizeram conectar os dois mundos. Uma aluna, por exemplo, associou a lição escolar sobre a água ao trabalho do pai na companhia de saneamento do Distrito Federal.

“Houve uma aproximação da vida cotidiana das famílias. Viemos a conhecer o perfil dos pais, que por sua vez ficaram sabendo da realidade das crianças na escola”, afirma Cleide. “Antes, a gente percebia uma baixa participação dos pais e queria mudar isso.”

Em outra frente, a professora usou literatura infantil para rodas de histórias ligadas ao meio ambiente. Depois, as crianças faziam, livremente, um desenho em cima da história que ouviam. “A maioria conseguiu bons resultados. Havia correspondência entre o desenho e a história”, lembra Cleide.

Em paralelo às atividades, os alunos cuidavam da horta em uma hora específica do dia. Aquele microcosmo era explicado de maneira simples e servia para a professora abordar a interação entre os seres vivos (plantas, insetos e plantas etc). Assim foi dado o nome do projeto: “Horta Vertical: Ajudantes da Natureza”. Os estudantes chamavam os insetos “amigos das plantas”, que comiam “inimigos”, de “ajudantes da natureza”.

“Plantamos com a ideia de fazer um controle biológico. O foco não era o alimento em si, mas a produção do conhecimento”, relata a professora. “Falamos que na natureza as plantas dependiam umas das outras, introduzimos a interação dos insetos e que a natureza trabalha com harmonia, mas precisa dessa interação para controle biológico”, resume Cleide, que apresentava às crianças as imagens dos insetos.

As explicações tinham o tom de histórias infantis, com base nas falas que surgiam. Foi dessa forma, por exemplo, que a professora falou sobre a crotalária, planta atrativa da libélula, inseto que se alimenta dos ovos e das larvas do mosquito transmissor da dengue. Com o tempo, os próprios estudantes quiseram inventar histórias e criaram coletivamente, com a mediação docente, o conto da joaninha que ajudava a recompor o equilíbrio da natureza, história ilustrada por desenhos de uma monitora da escola.

“As crianças olhavam a ilustração da monitora e tentavam imitar”, lembra Cleide. “Foi gratificante ver o crescimento das crianças, que estavam entendendo as histórias a ponto de reproduzir na fala e no desenho.”

A harmonia da natureza foi uma deixa para tratar da cooperação entre os colegas de turma, o que ajudou a minimizar problemas interpessoais. “Eles perceberam que um precisava do outro e, como disse uma aluna, ‘cada um tem o seu tipo’. O trabalho foi se desdobrando em coisas que a gente nem tinha ideia de que aconteceria.”

A partir da conexão com os pais, no final do projeto, a turma de cerca de 20 alunos fez uma saída pedagógica à chácara da mãe de uma estudante, que se dispôs a receber as crianças para apresentar a horta de produtos orgânicos cultivada pela família. Com a ajuda do marido, ela preparou uma mesa de alimentos cultivados sem agrotóxicos, ou “sem veneno” na linguagem dos alunos, deixou-os acessíveis e fez uma exposição a todos dos detalhes do cultivo e da colheita à vista, sob uma perspectiva ecológica.

Para a professora, a mãe da criança realizou uma verdadeira “aula” sobre a horta orgânica que cultivava, demonstrando como era a interação com as plantas na vida real, o que deu um caráter ainda mais prático aos conhecimentos trabalhados a partir da construção da horta escolar. “Não imaginávamos que a mãe de uma aluna era produtora agroecológica. No projeto, houve uma aproximação da vida cotidiana das famílias e soubemos a realidade das crianças”, diz Cleide.