Banco de Práticas Inovadoras

Conteúdos Banco de Práticas Inovadoras

Voltar

Caso 15: Além da imaginação (Competência 7)

12/set/2018


Professora:
Francisca Deusineide dos Santos Nasário
Quem é a professora: Formada em pedagogia, especializada em psicopedagogia, leciona há 7 anos na rede pública há 5 anos na escola. Foi destaque estadual no Rio Grande do Norte, na etapa dos anos iniciais do ensino fundamental (4º e 5º anos), na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.

Escola: Escola Estadual Ubiratan Pereira Galvão
Municipio: Pau dos Ferros UF: Rio Grande do Norte
Etapa de ensino: Ensino Fundamental - Anos Iniciais

Ano: 2016
Área de conhecimento: Linguagens e Ciências Humanas
Componente curricular: Língua Portuguesa, História e Geografia

Download do PDF
ipen_competencia29

Além da Imaginação


caso15_banner

Professora usa lenda que despertava curiosidade da turma para incentivar pesquisa sobre passado da escola e do município, estimular a leitura e orientar alunos na produção dos próprios contos fantásticos

Na sala de aula do 4º ano, a curiosidade dos estudantes estava aguçada. Não era por lições de língua portuguesa, problemas matemáticos ou discussões sobre o meio ambiente. As crianças, na faixa etária dos 9 anos, queriam saber se a escola em que estudavam fora construída no terreno de um antigo cemitério da cidade, história que se ouvia entre as turmas, intramuros.

Após ouvir perguntas do tipo “tia, será que a gente vai encontrar ossos aqui?”, a professora Francisca Deusineide dos Santos Nasário, de 40 anos, direcionou aquilo que movia os alunos a uma prática que exercitasse aquela curiosidade e os fizesse buscar respostas nas ruas de Pau dos Ferros, cidade potiguar do sertão nordestino.

O projeto “A escola onde eu estudo e uma lenda tenebrosa”, realizado em 2016, impulsionou os estudantes a utilizarem os conhecimentos historicamente construídos para compreenderem se aquela “história do cemitério” era verdadeira, exigindo que baseassem a resposta em fatos, dados ou informações confiáveis. Dessa forma, a professora usaria a argumentação a ser desenvolvida pelas crianças para trabalhar a história do município, o que estava programado no currículo da escola.

“Falei a alunos que não adiantava ficar nessa do ‘eu acho’ ou ‘o meu pai disse’. Tinha que investigar para ter conhecimento de causa”, relata Deusineide.

Lançado o desafio, a professora passou a sistematizar o trabalho da turma. Uma das primeiras atividades foi buscar no entorno da escola moradores antigos. Após as entrevistas, os alunos descobriram que os vizinhos tinham vindo de outras cidades e não tinham propriedade para reconstruir os fatos históricos de que precisavam.

Orientada por Deusineide, que dividiu a turma em grupos, a pesquisa se aprofundou, relacionando as histórias da construção da escola às da formação da cidade, o que permitiu traçar uma linha do tempo com as datas de emancipação do município, de construção do antigo cemitério e de abertura do colégio. Uma visita à casa de um senhor de 100 anos de idade, longevo morador da cidade, fechou o quebra-cabeça.

“Este senhor era uma enciclopédia ambulante e sabia a data de construção do antigo cemitério e também onde estava localizado, que era onde hoje tem uma agência bancária. Não era a área da escola”, diz a professora. “Quando descobrimos todas as datas, fizemos a linha do tempo e depois passei a trabalhar esse gênero com eles, passando como tarefa de casa que desenhassem a linha do tempo da vida deles.”

A pesquisa ajudou a reconstituir o passado da escola, erguida décadas atrás para acolher filhos dos funcionários das obras contra a seca promovidas pelo Dnocs, órgão federal que batizou a Vila Dnocs, um bairro da cidade. Esse ponto motivou lições de geografia. “Pintamos juntos uma rosa dos ventos no chão da escola para indicar o ponto cardeal em relação à Vila Dnocs”, relata Deusineide. “Também delimitamos a região do alto oeste potiguar em um mapa e pedimos para os alunos pintarem uma cidade. Eles escolhiam associando ao local onde o pai trabalhava, a avó morava etc.”

O rigor com as informações históricas também pôde ser trabalhado, pois se descobriu durante a pesquisa que o nome do colégio, referência a um agrônomo que atuou nas obras contra a seca, estava incompleto. “Corrigimos o histórico escolar para incluir o nome completo, que era Ubiratan Pereira Galvão, e não só Ubiratan Galvão”, lembra a professora. “Fiquei sabendo de muitas coisas que eu não conhecia da minha cidade.”

Em outra frente do projeto, levada paralelamente à pesquisa, Deusineide separou na biblioteca livros de contos de terror e de suspense, com o plano de explorar o gênero para incentivar a leitura e auxiliar a produção textual dos alunos.

Com a turma já ciente que a história do cemitério no terreno da escola não era verdadeira, a professora detalhou lendas de tradição oral, exibiu um filme com referência à temática e, ao final, pediu que os estudantes produzissem as próprias lendas sobre a escola, livremente inspiradas nos contos que leram ou ouviram.

“Chegaram lendas da loura do banheiro, mas também histórias originais e engraçadas. Apesar de certas redações sem estrutura do gênero (conto), fizemos a reescrita delas com eles, individualmente, com base na aprendizagem de cada um”, diz a professora.

O processo individualizado de reescrita foi essencial para fazê-los entender de maneira mais aprofundada as necessidades de ortografia e de paragrafação, entre outros pontos relativos à estrutura textual. Como parte da prática pedagógica, os contos reescritos foram lidos pelos autores em sala de aula e, depois, digitados no laboratório de informática para que integrassem a exposição escolar apresentada no Dia do Folclore.

“A gente avaliou de acordo com a especificidade de cada um e, nas leituras deles, viu a riqueza que foi trabalhar com o projeto. Aluno que nunca tinha lido nada leu em voz alta a lenda para os colegas ouvirem”, lembra Deusineide.