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Caso 18: Relaxar e dialogar para aprender (Competência 8)

12/set/2018

Professora
: Carolina Corado da Silva Oliveira
Quem é a professora: Licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas, com mestrado em genética e biologia molecular, leciona na rede federal de educação científica e tecnológica há oito anos. Foi destaque estadual do Rio Grande do Norte, na etapa do ensino médio, na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.
Escola: Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do RN (IFRN) – Campus Cidade Alta
Municipio: Natal UF: Rio Grande do Norte
Etapa de ensino: Ensino Médio
Ano: 2016
Área de conhecimento: Ciências da Natureza
Componente curricular: Ciências biológicas

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Relaxar e dialogar para aprender


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Professora aplica técnicas de meditação a jovens do Rio Grande do Norte para aliviar a tensão em sala e facilitar o aprendizado de biologia, priorizando a construção de diálogos e o protagonismo do aluno

Você já passou pela experiência de, durante a aula, ter que assistir um estudante adolescente em pânico, no meio de uma crise de ansiedade

A professora Carolina Corado da Silva Oliveira, de 35 anos, já havia experimentado tal situação mais de uma vez na carreira docente e resolveu aplicar estratégias que ampliam a tomada de consciência corporal para ajudar a relaxar jovens do ensino médio. O controle da ansiedade em sala, ligada em geral à proximidade de exames vestibulares ou do Enem, foi um modo de facilitar o processo de aprendizagem.

Desenvolvido com estudantes do 1º e 3º anos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte, o projeto “Aprender a relaxar e relaxar para aprender: metodologias ativas de ensino em biologia”, interligado à temática da disciplina, integrou-se ao trabalho da professora em 2016.

O contato com estudos do Instituto do Cérebro de Natal, referência em neurociências e temas correlatos, ajudou Carolina a se aproximar de técnicas comuns à meditação e ao mindfulness, ou à busca da “atenção plena”, que servissem aos padawans, como costuma chamar seus “aprendizes” (referência ao filme Star Wars). A ideia da prática era que cada um deles pudesse conhecer-se melhor, reconhecer estados de ansiedade e assim aprender a cuidar da própria saúde, tanto física quanto emocional.

“Percebi que eles tinham um componente de ansiedade forte, limitante para o desenvolvimento em sala de aula”, relata Carolina. “Todo aprendiz tem a zona de conforto, a de desenvolvimento e a de pânico... Eles passavam da zona de conforto para a de pânico rapidamente. Tinha que trabalhar algo. Não é fácil ver um estudante ter um ataque de pânico em sala e ter que acalmá-lo enquanto lida com os demais.”

Técnicas de mindfulness ajudaram a professora, por exemplo, a orientá-los sobre a postura ao sentar na cadeira, a percepção da respiração e dos movimentos do corpo. Segundo Carolina, esse trabalho ajudou na percepção do outro, do que ocorria no entorno e no desenvolvimento de um nível maior de atenção no decorrer da prática.

“Eu vou guiando-os em 3 a 5 minutos da aula. Era pouco, mas suficiente para eles perceberem os resultados no diálogo. Com ansiedade, você não come, dorme nem estuda direito”, diz Carolina. “Queria que o aluno aprendiz soubesse fazer associações do conteúdo com a realidade que o cercava para trabalhar com isso de forma positiva.”

O trabalho de relaxamento foi fundamental ao longo das atividades construídas para priorizar estratégias de diálogo e pôr os estudantes no centro do processo. Em 2014, como parte de um programa federal de formação, Carolina ficou cinco meses na Finlândia aprendendo sobre metodologias de ensino. “Lá eles usam muito Paulo Freire, o estudante como protagonista e estratégias para você tornar o diálogo como arcabouço do processo de aprendizagem”, afirma.

Nessa proposta, Carolina criava no começo uma situação lúdica para que os alunos se autoavaliassem e reconhecessem a importância de se comunicar melhor para ampliar o entendimento de suas mensagens. “Eles mesmo disseram nesta autoavaliação que era difícil entender o que o outro estava falando”, lembra.

A construção de um diálogo mais apurado permeou os quatro módulos criados para o ensino de biologia. Primeiramente, a professora introduziu conceitos de metodologia científica ao apresentar uma caixa fechada contendo um objeto não identificado. Sem abri-la, os estudantes passaram duas semanas interagindo com a caixa, debatendo e elaborando hipóteses. Utilizaram, entre outras, habilidades de matemática e física, como a geometria da caixa e tipo de som que o objeto fazia.

“Não revelo o que tem dentro, mas ao final eles apresentaram modelos de objetos que desenharam próximos ao real”, conta Carolina.

As divergências acentuadas entre os alunos, em especial nas fases iniciais da prática, fizeram a professora trabalhar bastante a maneira como discordavam uns dos outros. “Eles se atacavam. Trabalhei com eles como discordar, tentando escutar e compreender o que o outro diz, analisar o ponto central do argumento e aí sim montar o seu próprio argumento”, afirma.

Nas etapas seguintes, a maioria em grupo, eles realizaram andanças pelo jardim da escola para discutir temas como bioquímica e nutrição, foram protagonistas de jogo em que respondiam perguntas relacionadas aos grupos alimentares e debatiam metabolismo, por meio do código compartilhado de um aplicativo, e trabalharam citologia ao vivenciarem experiências em sala, comparando por exemplo as reações de infusão do chá em água quente e em água fria.

Para cada módulo, a professora realizou um tipo de avaliação. Observou a performance individual no jogo aplicado em sala, resultado obtido pelo aplicativo, e o desempenho dos estudantes na conferência em que formulavam hipóteses e faziam deduções no módulo sobre metodologia. Avaliou também a participação deles em pequenos seminários, a maneira como dialogavam dentro e fora dos grupos e os argumentos utilizados para explicar aos colegas os conceitos aprendidos.

No final, foi aplicada uma prova escrita em que Carolina usou recursos para aliviar a tensão pré-teste, imprimindo as folhas em papel azul e formato de paisagem. A professora também pôs uma bola de Pilates no meio da sala de aula para que os jovens interagissem com ela quando quisessem relaxar na hora da prova e não atribuiu pontos às questões, mas sim descreveu as habilidades esperadas na resolução delas.

“Todo o projeto foi trabalhando ansiedade. Queria fazê-los entender que aprendiam de acordo com o interesse deles”, diz Carolina. “Eu avalio o salto de desenvolvimento que eles dão. Se o aluno não conseguia escrever um parágrafo no começo e depois conseguiu pôr a ideia no papel, para mim está ótimo”, afirma.