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Caso 19: Os cordéis da minha terra (Competência 1)

12/set/2018

Professor
: José Souza dos Santos
Quem é o professor: Formado em letras, com pós-graduação em estudos linguísticos e literários aplicados ao ensino de língua portuguesa, leciona na rede municipal e na escola há 6 anos. Foi vencedor da Bahia e da região Nordeste, na etapa dos anos finais do ensino fundamental, na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.
Escola: Escola Municipal Maria Dias Trindade
Municipio: Paripiranga UF: Bahia
Etapa de ensino: Ensino Fundamental / Anos Finais
Ano: 2017
Área de conhecimento: Linguagens
Componente curricular: Língua Portuguesa

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Os cordéis da minha terra


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Professor de língua portuguesa constrói sequência didática que faz turma com deficit em leitura e escrita dar salto de aprendizagem para produzir audiolivros de cordel que se tornaram um sucesso

Quando ouviu um professor reclamar que o atraso em leitura dos estudantes no final do ensino fundamental era um grande obstáculo para o ensino da matemática, dada a limitada capacidade de interpretação dos enunciados dos problemas, o professor de língua portuguesa José Souza dos Santos, de 34 anos, chegou à sala de aula querendo fazer algo diferente para desenvolver o aprendizado deles na matéria.

Na turma do 8º ano da escola municipal de Paripiranga, divisa da Bahia com Sergipe, havia alunos de 13 a 17 anos, com distorção idade-série significativa. Atento às conversas dos jovens, José ouviu falas sobre lobisomem e as expandiu para um papo com a sala toda sobre lendas. E propôs que os estudantes se inspirassem na tradição oral de familiares mais velhos, muitos deles analfabetos, para ir às ruas colher narrativas como aquela do homem que vira lobo.

O desafio era, depois de gravar ou anotar as histórias orais, colocá-las no papel para que fossem lidas aos colegas aquelas lendas fantásticas, primeira etapa do que viria a ser o projeto “Cordelize a vida! Valorize a sua cultura!”, realizado em meados de 2017 e que utilizou os conhecimentos construídos na localidade para melhorar o processo de aprendizagem. “Costumo resumir o projeto no caminho do oral à prosa e depois da prosa ao verso, mais especificamente ao cordel”, diz o professor.

Uma das principais expectativas de José era de que os adolescentes conhecessem melhor as tradições locais, as narrativas das terras que habitam e das famílias que os embalaram para o mundo, em um resgate de histórias ouvidas e interpretadas por décadas, algumas quase esquecidas e outras reinventadas ao longo do tempo. “A TV roubou as histórias dos avós”, afirma o professor.

A atividade de escrita das entrevistas exigiu de José paciência para trabalhar, individualmente, as deficiências. Fazia observações, devolvia os textos e pedia a reescrita. Em alguns casos, fez isso três vezes. Para ajudar, formou trios em que sempre um estudante com mais facilidade no desenvolvimento das atividades assumia o papel de monitor dos demais, em atividades para dar coesão textual aos causos. Esse trabalho de monitoria também foi expandido para o contraturno da escola.

“Quando você dá esse retorno, faz anotações e mostra que leu o que ele escreveu, você ganha esse jovem e vê a aprendizagem fluir melhor”, afirma o professor. “Era um texto em prosa, que requer regra. Paragrafação, escrita mais apurada. Com esse trabalho colaborativo deles, em trio, ficaram prontos os causos”, diz.

Antes de propor a transformação da prosa dos 12 causos em versos, José apresentou à turma os cordéis famosos da região, sobre aventuras de Lampião, o pavão misterioso, entre outros. Os alunos ouviam os cordéis em rodas de conversa, na quadra da escola.

Nesta incursão, também debateram o poema “A descoberta da literatura”, de João Cabral de Melo Neto, uma exaltação ao mundo da literatura de cordel.

No estudo do poema, tiveram que usar o dicionário para buscar o significado de algumas palavras e o professor introduziu o conceito de leitor ouvinte. “O poema fala do filho do engenho que lê cordel para os escravos. Eu disse que muitos dos pais ou dos avós podiam não saber ler, mas eram leitores ouvintes, um tipo de leitor. Eles têm conhecimento e não são saco vazio. Têm que ser respeitados”, afirma José. “Eles começaram a entender o que eram leitores ouvintes, o que era literatura, o que era um poema e uma denúncia social em forma de cordel”, lembra.

Após esse processo, a turma então recebeu um prazo do professor para apurar ideias e entrevistar pessoas para a construção de cordéis. Do trabalho brotaram lendas populares, como da Luzerna ou da Casa Mal-Assombrada, mas também histórias com um pé na realidade, como a de um senhor de 100 anos que dizia ter visto Lampião e um cordel sobre o processo artesanal de fazer farinha, uma tradição regional.

“A gente percebeu que os cordéis foram realmente fruto de pesquisa. Eles usaram o poder de detetive que eles têm”, afirma José. “O trabalho não partiu só para lendas. Foram resgates naturais e históricos”, acredita.

Os 24 cordéis escritos pelos estudantes foram amarrados com um barbante, como manda a tradição, e os entrevistados que deram origem a eles ganharam um livreto correspondente à história que contaram. Os trabalhos foram apresentados à comunidade escolar em uma “tarde de autógrafos”.

Mobilizada, a turma passou a conversar com o professor sobre uma aluna cega do 5º ano que era “leitora ouvinte” e tinha que ter acesso aos cordéis também, o que fez surgir a ideia de elaborar um audiolivro para estudantes com deficiência visual da rede municipal. Com o apoio da escola e a ajuda da secretaria de educação da cidade, que forneceu insumos de impressão, foram produzidos 40 audiolivros para distribuir gratuitamente os cordéis às escolas, destinados a esse público. “Fiz um levantamento dos estudantes com baixa visão e cegueira (na rede municipal) e fizemos um audiolivro com a voz dos alunos contando as histórias”, lembra José.

Com a divulgação do trabalho feita pelos jovens nas redes sociais e o sucesso da prática, o professor começou a ser procurado por pessoas de fora da comunidade escolar interessadas em ter um exemplar do produto recém-criado. Agora com recursos próprios e a parceria com uma gráfica local, o professor passou a encomendar audiolivros para atender à demanda, combinando com os estudantes que os recursos arrecadados com as vendas por encomenda seriam utilizados para ajudar a financiar uma viagem de formatura da turma no ensino fundamental, no final de 2018.

A turma planeja conhecer um ponto turístico da Rota do Cangaço, em Sergipe. Em seis meses, foram vendidos cerca de 100 audiolivros. “Já que foram muitos causos sobre Lampião, propus a eles (alunos) usar o dinheiro (arrecadado com as vendas) para conhecer por onde Lampião passou. A galera topou. Ficaram contentes de viajar com o fruto do trabalho deles”, relata José.