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Caso 21: Vivências como fundamento da aprendizagem (Competência 7)

12/set/2018

Professora
: Maria do Socorro Braga Reis
Quem é a professora: Licenciada em letras e em computação, mestranda em linguística, leciona na rede estadual há 22 anos e na escola há 12 anos. Foi destaque estadual do Pará, na etapa do ensino médio, na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.
Escola: Escola Estadual Yolanda Chaves (EF e EM)
Municipio: Bragança UF: Pará
Etapa de ensino: Ensino Médio
Ano: 2016
Área de conhecimento: Linguagens
Componente curricular: Língua Portuguesa
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Vivências como fundamento da aprendizagem


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Professora do Pará recorre a pesquisa de campo sobre os modos de vida da cidade para melhorar a autoestima dos estudantes e impulsionar entendimento mais amplo da língua portuguesa

Professora de língua portuguesa e interpretação de texto, Maria do Socorro Braga Reis, de 51 anos, trabalhava com os estudantes daquela turma de 2º ano havia 18 meses, desde o início do ensino médio. Sabia das dificuldades que os jovens tinham para compreender uma prosa, refletir sobre uma história, encadear as ideias para uma redação e escrever na forma culta do idioma, ou discriminá-la do uso popular do português falado nas ruas de Bragança, no Pará.

Inspirada em uma sequência didática desenvolvida pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária) para as atividades de formação da Olimpíada da Língua Portuguesa, a professora propôs aos alunos que trabalhassem o gênero crônica, em especial a crônica etnográfica, oportunidade de dar vazão à criatividade dos alunos com temas que integravam o dia a dia de um município sob a influência da cultura amazônica.

O projeto “Histórias qu’eu vi-vi: crônicas etnográficas” foi construído de forma gradativa, entre meados de 2016 e o ano letivo de 2017, para que os jovens pudessem entender do que se tratava o gênero, desenvolvessem habilidades mais apuradas de escrita e, com base nos registros colhidos em pesquisas de campo, argumentassem de maneira a retratar atividades e hábitos cotidianos daquela comunidade paraense.

“Foi um grande desafio fazer oficina de crônicas porque a turma não tinha muita habilidade com esse gênero. Eu os acompanhava desde o 1º ano e faltava a eles algumas recuperações de conteúdo. Tinham dificuldades de coordenar o pensamento dentro da dissertação argumentativa, além da ortografia. Eu ficava preocupada ao ver um aluno sem conseguir retirar o que está explícito no texto”, relata Socorro.

Um dos primeiros passos foi trabalhar a definição de etnografia, conceito normalmente estranho ao ensino médio. Após apresentar aos jovens obras de Fernando Sabino e Luis Fernando Veríssimo, levar à sala de aula alguns textos simples e ela mesma fazer resenhas de crônicas mais complexas, a professora mostrou à turma vídeos que mostravam o fazer etnográfico, o que antecedeu o trabalho de campo.

“Depois fomos ver de perto grupos de nossa sociedade que não têm muita visibilidade, como catadores do lixão, coletadores de caranguejo, carregadores de peixe, feirantes que vendem ervas, a família de uma aluna que vivia de fazer farinha de mandioca, pessoas que trabalham na beira do porto... Eles acompanhavam esses grupos e fotografavam. As fotos dariam os subsídios para as crônicas”, conta Socorro.

Para tornar o gênero mais palatável aos estudantes, a professora contou com a ajuda de um antropólogo da Universidade Federal do Pará, que gravou um vídeo para a turma, e ela própria, que nasceu em uma pequena vila de pescadores, desenvolveu uma crônica etnográfica com o dia a dia de quem vivia da pesca no Rio Caeté, que banha a cidade. “Os meninos estavam aprendendo que para escrever era preciso ter propriedade para tratar do assunto, entrar na memória da pessoa. A partir do momento em que eles se sentiram pesquisadores, mudaram o pensar e passaram a questionar mais”, diz Socorro.

A turma foi dividida em grupos para o trabalho de campo, realizado sob a supervisão da professora. Um fotógrafo da cidade ajudou emprestando uma máquina antiga e dando noções de fotografia aos estudantes. Como as vivências guardavam relação com o modo de vida de muitas famílias deles, houve aproximação com a comunidade escolar. Segundo Socorro, a ideia era envolvê-los na prática do “aprender em rede”.

Antes de iniciar as atividades escritas de maneira mais intensa, a professora trabalhou muito a oralidade dos estudantes para que construíssem uma história que fizesse sentido com base no conjunto das fotos feitas durante as vivências. Os jovens montaram na escola um mural com a sequência de imagens e, com o trabalho pronto, levaram-no para uma praça perto da escola, onde expuseram as fotos à comunidade e narraram o roteiro e os personagens retratados.

“Dentro da escola, eles contaram aos outros como foi o processo de produção. Eu fazia intervenções, com perguntas sobre a norma culta, o que era o português padrão e o não padrão. Na mostra etnofotográfica feita na praça, interpretaram a história do mural que fizeram para as pessoas”, lembra Socorro.

Na parte escrita, cada estudante produziu o seu texto sobre a prática que desenvolvera, aumentando o número de enfoques dentro dos assuntos abordados. A orientação geral era para que o jovem olhasse as fotos e escrevesse a crônica colocando-se no lugar do outro, um exercício de empatia.

As primeiras crônicas da turma tiveram que ser reescritas. A professora contou com o apoio de uma colega linguista que ajudou nas correções e nas indicações das intervenções a fazer. Faltavam aos textos, entre outros elementos, modalizadores discursivos da língua, que atuam como indicadores de argumentação.

“Os primeiros textos não foram bons, difíceis. Eles não conseguiam entender que os parágrafos tinham que estar de acordo com as fotos e ter começo, meio e fim”, diz Socorro. “Foi muito importante fazê-los repensar o uso de modalizadores discursivos da língua. Eles tinham dificuldade de entender... Melhoraram a compreensão das leituras e das escritas que faziam e ampliaram as noções linguísticas e das normas.”

Para a professora, conforme os jovens passavam a acreditar mais no potencial deles, a aprendizagem se tornava mais eficaz e melhorava a percepção acerca dos diferentes usos da língua. O “qu’eu” do título do projeto é uma contração do português arcaico, bem comum no português falado da região, e o “vi-vi” está relacionado aos verbos “ver” e “vivenciar”. Ao final da prática, naquela turma, Socorro constatou que houve mudanças tanto na maneira de escrever quanto no modo de pensar o conhecimento.

“As vivências potencializaram as habilidades e, pela proximidade com a realidade deles, fizeram-nos acreditar na própria capacidade. Os alunos são capazes de melhorar e, quando acreditam, as coisas começam a fluir”, relata a professora.

As 20 crônicas etnográficas produzidas pela turma de Maria do Socorro foram reunidas em um aplicativo e expostas no site do governo do Estado