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Caso 22: A força da tradição pesqueira está com eles (Competência 6)

12/set/2018


Professora
: Maria do Socorro Braga Reis
Quem é a professora: Bacharel em turismo e hotelaria, com mestrado em turismo e hotelaria e MBA em gestão pública, leciona como há 4 anos na rede estadual e na escola. Foi a vencedora de Santa Catarina e da região Sul, na etapa do ensino médio, na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.
Escola: EEB (Escola Estadual Básica) Maria Rita Flor
Municipio: Bombinhas UF: Santa Catarina
Etapa de ensino: Ensino Médio
Ano: 2017
Área de conhecimento: Ciências Humanas e suas Tecnologias
Componente curricular: História & Geografia

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A força da tradição pesqueira está com eles

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Prática valoriza vínculo da pesca artesanal da tainha com comunidade do litoral catarinense, transforma estudantes de curso técnico em porta-vozes da cultura caiçara e ajuda a qualificá-los para o turismo local

Professora de língua portuguesa e interpretação de texto, Maria do Socorro Braga Reis, de 51 anos, Na faixa de areia, pedaços de paus enfileirados formam uma trilha para as canoas e os pescadores avistam o mar, à espera do sinal do olheiro. Na porção manchada d’água, o cardume é reconhecido e o aceno, feito. A transição dos homens ocorre rapidamente. Sobem no tronco de garapuvu remeiros, chumbereiros e o patrão, responsável por ditar o ritmo da canoa, a direção das remadas e o momento de jogar a rede. Na volta à areia, quem ajuda na “puxada” é retribuído com uma parte do resultado da pesca.

A professora Josiane Mendes Bezerra, de 47 anos, estruturou a prática após a escola receber um pedido da prefeitura para ajudar na mobilização da população em torno do resgate histórico-cultural da pesca artesanal da tainha. A atividade restringe o uso da praia por banhistas para garantir o trabalho dos pescadores, de abril a junho, o que nem sempre é entendido por turistas e frequentadores do balneário.

“Nessa época, nos ranchos de pesca artesanal, não pode entrar no mar nem surfar. Se a pessoa não entender o porquê, pode gerar situação desconfortável para o turismo. É mais fácil respeitar aquilo que se conhece”, diz Josiane. “É uma tradição que passa de pai para filho e há regras para que a pesca da tainha seja salvaguardada. Mas uma coisa é ter lei, outra é a compreensão de turistas, moradores e dos nossos alunos.”

O projeto foi desenvolvido em 2017, no período da pesca, e envolveu 150 alunos do ensino médio integrado, voltado à educação profissionalizante. No estudo do meio que marca a primeira etapa, os jovens assistiram a uma aula com pescadores em um típico rancho de madeira, à beira da faixa de areia. Conheceram ferramentas usadas, como os pescadores se organizam e tomaram contato com canoas de um pau só, feitas do tronco do garapuvu, relíquias que passam de geração a geração entre as famílias.

Um dos primeiros passos foi trabalhar a definição de etnografia, conceito normalmente estranho ao Após a atividade de campo, os estudantes foram divididos em grupos e orientados a buscar estudos científicos para aprofundar os conhecimentos. As informações da aula dos pescadores foram confrontadas com a bibliografia existente em dissertações de mestrado e sites dedicados ao tema, como páginas oficiais de órgãos públicos. “Eles aprenderam que na nossa região a pesca da tainha não começou com os açorianos, como muito se fala, mas com os indígenas”, exemplifica Josiane.

A professora ajudou a levantar o material de estudo, fez correções e ajustes nas formatações dos trabalhos e propôs reflexões aos jovens, como fazê-los pensar se a tradição da pesca artesanal poderia tornar-se atração turística sem perder sua origem. A pesquisa resultou em 12 pôsteres técnico-científicos com enfoques que variaram da história da pesca e do ciclo da tainha a receitas de pratos típicos da região.

“Uma minoria das famílias dos estudantes do projeto era daqui. A maioria tinha vindo de fora e, nos grupos de trabalho, as pessoas da comunidade passavam conhecimento para os outros. Houve essa troca e foi muito legal essa parte”, afirma Josiane.

Na continuidade do projeto, os alunos viram um documentário sobre os pescadores de Bombinhas, o que deu base para a construção de uma releitura teatral do filme. Os estudantes montaram o cenário, ajudaram na busca do figurino e na caracterização dos personagens e ensaiaram no contraturno das aulas. Josiane dirigiu a peça, apresentada à comunidade de pescadores no final das atividades, em julho.

O exercício teatral contou com a parceria de outros professores da escola e envolveu conteúdo multidisciplinar, reunindo geografia, história, matemática e música. Cerca de 200 pessoas se reuniram para ver a encenação dos jovens e cada rancho presente levou para casa uma escultura de barro, em formato de peixe, criada na escola.

“Foi uma noite de homenagens e os estudantes se esforçaram até para aprender o sotaque dos pescadores para fazer no teatro”, lembra Josiane.

Nas últimas semanas do projeto, os alunos voltaram a campo para replicar os conhecimentos adquiridos, como protagonistas do trabalho. Em uma espécie de estágio supervisionado, atuaram como se fossem guias de turismo a explicar a pesca artesanal a visitantes de um rancho-réplica construído pela secretaria de turismo da cidade e apresentaram a cultura dos pescadores a estudantes de outras turmas, servidores municipais, alunos de outros colégios e até a um segmento de empresários.

“A nossa comunidade foi sendo instruída pelos jovens”, diz Josiane. “Temos pessoas oriundas de várias partes do país e até de países vizinhos na cidade. Para que as relações sejam harmoniosas, pensamos em estratégias para que todo mundo conhecesse (a cultura da pesca artesanal da tainha)”, afirma.

Alinhado com a necessidade do turismo local, o projeto também ajudou a qualificar a entrada dos estudantes no mercado de trabalho, de acordo com a professora. Os participantes da prática cursavam o curso técnico em hospedagem, oferecido no ensino médio da escola. “Alguns alunos começaram a trabalhar no turismo da cidade em dezembro, na alta temporada, já com um outro olhar”, conta Josiane. “Eles vieram me dizer que agora ficam menos envergonhados de falar com o público, têm mais segurança e sabem como tratar o turista. Foi muito bom o que ouvi deles.”