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Caso 24: O celular como ferramenta pedagógica (Competência 5)

12/set/2018

Professor
: Erizaldo Cavalcanti Borges Pimentel
Quem é o professor: Licenciado em física, com mestrado em ensino de ciências e doutorado em educação na área do audiovisual, leciona há 25 anos na rede pública e há 4 anos na escola. Foi o vencedor do Distrito Federal e da região Centro-Oeste, na etapa dos anos finais do ensino fundamental (6º a 9º anos), na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.
Escola: CEF 1 do Cruzeiro
Municipio: Brasília UF: Distrito Federal
Etapa de ensino: Ensino Fundamental - Anos Finais
Ano: 2015
Área de conhecimento: Linguagens
Componente curricular: Arte

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“Cine com ciência: luz, câmera... Educação!”

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Professor de Brasília supera proibição da escola para implantar aula de cinema em que estudantes produzem e editam filmes usando smartphones em prática que aproxima famílias do cotidiano escolar

Ao contrariar a diretriz que proibia o uso de telefones celulares nas salas de aula do Distrito Federal, em 2015, o professor Erizaldo Cavalcanti Borges Pimentel, de 52 anos, surpreendeu na época os estudantes do segundo ciclo do ensino fundamental. O protocolo da escola recomendava pôr os aparelhos dentro de uma caixa na primeira aula e só devolvê-los na hora de ir embora. Zaldo, como é conhecido, pegou a caixa com os celulares e os entregou aos alunos com uma mensagem clara: “fazer cinema”.

Responsável por uma parte flexível da grade curricular (parte diversificada) que permite experimentações para ampliar a visão social das turmas, o professor planejou conciliar o interesse adolescente pela linguagem audiovisual e a tecnologia acessível dos smartphones para desenvolver o pensamento crítico e produzir conhecimentos. Desde então, o projeto “Cine com ciência: luz, câmera... Educação!” tornou-se prática comum às turmas do 6º ao 9º ano do ensino fundamental da escola de Cruzeiro, região administrativa de Brasília, consolidando o uso pedagógico do celular em sala de aula.

“A linguagem audiovisual já está com os meninos. A ideia foi deixar os celulares com eles e criar condições para que trabalhassem e produzissem”, diz Zaldo, que escreveu a tese de doutorado acerca da experiência e está trabalhando no pós-doutorado sobre o assunto. “Claro que nem tudo são flores e tinha aluno que preferia ouvir música. O trabalho audiovisual não é solução, e sim faz parte do processo”, ressalva.

A estratégia foi deixar os estudantes iniciarem a produção rapidamente para provocar uma reflexão sobre a importância do planejamento. Após duas aulas introdutórias, em que faz uma abordagem histórica do cinema, Zaldo já pede aos alunos um vídeo curto, de 10 a 15 segundos. Os registros de campo são projetados e debatidos em sala.

“Deixo os meninos pilhados e, nesse primeiro trabalho, começo a questionar: ‘o que você faria diferente?’, ‘se pudesse voltar, o que vocês fariam?’... Digo sempre que não se faz nada bem feito sem planejamento, inclusive um filme. O impulso juvenil é começar pelo final... Pensam que é pegar o celular e sair gravando”, diz o professor.

O curso de formação que fez em 2016, sobre produção audiovisual, ajudou Zaldo a vivenciar as etapas de pré-produção. Os alunos são orientados a montar grupos para elaborarem a narrativa e, com o correr dos meses, inicia-se o roteiro técnico, seguindo modelo usado em TV: em uma coluna, ficam as descrições das cenas, o que o espectador vai ver; na outra, as falas dos personagens, o que o público vai ouvir.

“A orientação é para que o grupo formado no primeiro bimestre siga junto ao longo do ano. Cinema é uma obra coletiva e é preciso passar por cima de algumas dificuldades de relacionamento deles próprios para que expressem ali o trabalho do grupo”, diz.

Dependendo da turma, Zaldo trabalha conteúdos interdisciplinares que possam ser relacionados à prática, adaptando algumas atividades. Professor de matemática e física, fala para alunos do 6º ano, por exemplo, sobre persistência da visão, ilusão que faz o objeto avistado seguir na retina por fração de segundo, base da ideia de movimento do cinema. “São alunos de 11 anos e eles ficam brincando de virar folhas e ficar olhando a sequência das bolinhas desenhadas”, conta.

Durante as aulas, Zaldo também estimula os estudantes à leitura, organiza pesquisas na internet e analisa cenas de filmes para discutir enquadramento e posicionamento de câmera, levando-os a pensar de maneira crítica sobre as mensagens implícitas nas escolhas feitas durante a produção audiovisual. Na hora de definir os sets de filmagem, o professor orienta que os alunos busquem familiares ou professores para interpretar personagens adultos, o que em geral gera envolvimento dos pais com o trabalho.

“Participam professores de outras disciplinas e aqueles que não são professores são pais de alunos... Rapaz, isso funciona que é uma beleza. Saiu dos limites da escola e envolveu os pais, o que marca a vida de meninos de alguma maneira”, relata Zaldo.

No projeto, os filmes são norteados por temas ligados ao mundo dos estudantes, em geral com um forte traço social, como por exemplo os trabalhos sobre crise hídrica e bullying. Ao todo, em três anos de atividades, são cerca de 50 curtas finalizados.

“Outro ponto é trabalhar filmes que desestimulem a violência. A ideia é estimular a tolerância, a paciência, um mundo melhor. Os meninos já chegam violentados e procurei fazer um contraponto. Tem dado certo”, afirma Zaldo, citando um curta que trabalhou o suicídio sob uma perspectiva de esperança. “É interessante observar que os vídeos espontâneos deles têm referências a violências. A gente procura mostrar outros universos e, quando a violência existe, o filme é feito para repensá-la”, diz.

Além de gravar as cenas, os celulares são usados também para editar as imagens, por meio de aplicativos que os estudantes foram descobrindo para o dia a dia da prática, alguns deles desconhecidos do próprio professor. A avaliação é feita ao final do projeto, de acordo com a produção coletiva apresentada pelo grupo.

Após três anos com as aulas de cinema, a escola resolveu rever em 2018 a rotina de recolher os celulares dos estudantes na primeira aula, deixando-os com os aparelhos.