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Caso 27: Matemática para todos (Competência 4)

12/set/2018

Professor
: Adalgísio Gonçalves Soares
Quem é o professor: Licenciado em matemática, com pós-graduação em supervisão escolar e especialização em docência em metodologia no ensino superior, leciona há 26 anos na rede estadual e há 8 anos na escola. Foi vencedor de Minas Gerais, da região Sudeste e da fase nacional, na etapa dos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano), na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.
Escola: EE Presidente Costa e Silva
Municipio: Minas Novas UF: Minas Gerais
Etapa de ensino: Ensino Fundamental - Anos Finais
Ano: 2017
Área de conhecimento: Matemática
Componente curricular: Matemática

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Matemática para todos

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Professor estrutura prática para que estudantes que estavam à margem da rotina da escola se integrassem às turmas e aprendessem conteúdos participando de coletivos e produzindo vídeos inspirados em Malba Tahan

O professor Adalgísio Gonçalves Soares, de 45 anos, costuma trabalhar o livro “O Homem que Calculava” nas aulas de matemática a partir do 6º ano. Adapta contos da obra de Malba Tahan ao conteúdo programático das turmas para prender a atenção dos pré-adolescentes do segundo ciclo do ensino fundamental à maneira que Xerazade fazia com o rei para escapar da morte narrando histórias por “mil e uma noites”.

Em 2017, resolveu usar a obra como argumento para que quatro turmas, duas do 8º ano e duas do 9º ano, expressassem conhecimentos matemáticos por meio de curtas-metragens inspirados na resolução dos problemas das histórias de Malba Tahan, pseudônimo do escritor brasileiro Júlio César de Mello e Souza, autor consagrado no Século 20 por misturar desafios matemáticos às aventuras de livros infantojuvenis.

“Levei a ideia de produzir e dramatizar os contos de Malba, isso foi amadurecendo e escolhemos juntos o festival de curtas, que era mais viável e interessante para eles”, diz Adalgísio. “A matemática, por si só, já é complicada, uma das matérias mais odiadas. Se eu não procurar uma forma mais atrativa, fica muito complicado o trabalho.”

Desenvolvido de junho a outubro de 2017, o projeto “Festival de curtas, uma viagem às mil e uma noites de Malba Tahan” apresentou aos alunos um rol de contos do escritor. Eles teriam que se dividir em grupos, resolver coletivamente um desafio matemático que constasse na obra escolhida e, a partir daí, pensar em como construir uma narrativa para um filme. O trabalho em grupo foi um ponto forte da prática.

Além de apoiar as soluções dos problemas e orientar pesquisas em torno do autor, o professor alinhou as histórias às matérias a serem ministradas em sala. Usava os contos, por exemplo, para explicar equações do primeiro grau, operações com números racionais, entre outros pontos. “Tinha um momento em que o conto (de um grupo) era colocado para toda a turma, que tomava conhecimento de todos os conteúdos que estavam sendo trabalhados”, relata Adalgísio.

Ao estruturar o trabalho em grupo, o professor criou uma estratégia na busca por conjuntos heterogêneos, nos quais estudantes aplicados trocassem experiências com outros com mais dificuldades de aprendizagem, e pediu que a classe elegesse cinco líderes. Os eleitos escolheram os colegas com quem dividiriam a prática.

“Os grupos ficaram bem diversificados. Um dos líderes foi um aluno que não era muito ligado em conteúdo, mas era extrovertido, cantava e poderia ajudar na parte artística. Foi uma maneira de aproveitar as habilidades que cada um tinha e também evitar que aqueles com dificuldade maior ficassem à margem das atividades”, afirma Adalgísio

“Essa interação entre estudantes em diferentes níveis de aprendizagem proporcionou um dos resultados mais gratificantes, na visão do professor: integrar ao dia a dia da escola aqueles que já estavam sendo chamados à boca pequena de “alunos-problema”.

Alguns enfrentam problemas sociais sérios, com famílias desestruturadas, bebida, droga... E não participavam de nada, ano após ano”, conta Adalgísio. “O maior ganho foi pôr esse estudante em evidência, colocá-lo como protagonista para tomar decisões, envolvê-lo na realidade da escola e despertar nele o interesse pelo conteúdo”, afirma.

Além das discussões em sala sobre as matemáticas dos contos, o que também permitiu ao professor trabalhar o estudo do gênero textual e habilidades de leitura e escrita, o projeto mobilizou os estudantes no contraturno escolar para encontros específicos para cuidar da logística do curta-metragem. Houve muito improviso na produção, a começar pela pesquisa na internet: sem laboratório de informática na escola, eram usados computadores dos supervisores do colégio, da casa do professor ou dos alunos.

À medida que surgiam as dificuldades para produzir os filmes, entretanto, a comunidade do entorno da escola estadual de Minas Novas, na região mineira do Vale do Jequitinhonha, mobilizava-se mais em torno do projeto. Para um dos curtas, ambientado nos anos 1970, o pai de um aluno emprestou um Fusca, que ele próprio dirigiu na cena feita em uma lanchonete da cidade. “São só 8.000 habitantes na área urbana. As pessoas viam a agitação em torno das filmagens e começavam a comentar”, lembra Adalgísio. “Essa logística de produção foi na base da intuição e de pesquisa na internet. Tudo com improviso e criatividade”, relata.

“A atitude em relação à escola mudou. Eles começaram a entregar os trabalhos, pararam de faltar e ficaram mais motivados. Como puseram a mão na massa, pegaram mais confiança neles mesmos com o trabalho. Aquela história do ‘eu posso fazer’, ‘eu consigo fazer’”, afirma Raquel. “No meio da preparação, chegou um aluno gaúcho transferido e eles o receberam bem e o integraram ao jogo. Aprendi um monte de coisa sobre o Rio Grande do Sul”, conta.

Os moradores locais ajudaram a viabilizar o festival de curtas-metragens para exibir os vídeos em praça pública, em um telão cedido para o evento. O projeto totalizou 20 filmes, um por grupo de trabalho, produzidos com imagens feitas com os celulares dos adolescentes ou de familiares deles. No palco emprestado pela paróquia do município, os alunos contaram a história do próprio trabalho. Ao longo da prática, cerca de 140 jovens participaram das atividades. No final dela, os ganhos de aprendizado foram medidos por meio de uma avaliação escrita aplicada pelo professor. “A gente avaliava cada fase (do projeto). Alguns grupos superaram nossas expectativas e outros ficaram aquém. Mas cerca de 80% dos alunos aprenderam o conteúdo”, calcula Adalgísio.

Mais difícil de mensurar, outro resultado da prática é o que faz brilhar os olhos do professor. “Coloco como grande ganho o resgate deste estudante que ficava à margem do processo, envolvido em questões familiares que explicavam o desempenho insatisfatório e a rebeldia dele. Não tem preço para a gente vê-lo subir no palco durante o festival de curtas e apresentar à comunidade o trabalho do grupo.”