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Caso 28: O segredo dos seus olhos (Competência 10)

12/set/2018

Professora
: Elisangela Marina de Freitas e Silva
Quem é a professora: Licenciada em história, com mestrado em história cultural, leciona como substituta na rede municipal desde 2015, trocando de escola. Foi a vencedora de Santa Catarina e da região Sul, na etapa dos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano), na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.
Escola: EBM (Escola Básica Municipal) Intendente Aricomedes da Silva (EBIAS)
Municipio: Florianópolis UF: Santa Catarina
Etapa de ensino: Ensino Fundamental - Anos Finais
Ano: 2017
Área de conhecimento: Ciências Humanas
Componente curricular: História

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O segredo dos seus olhos


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Professora faz formação em braile e constrói, com a colaboração da escola, estratégias pedagógicas para tornar prática de ensino de história acessível para turma do 6º ano com estudante cego

Ao atuar como substituta na rede municipal de Florianópolis, a professora Elisangela Marina de Freitas e Silva, de 29 anos, costuma conhecer a unidade em que trabalhará após as primeiras semanas de aula. Em 2017, ao chegar em março à escola Intendente Aricomedes da Silva, de pronto já foi chamada para uma conversa com as professoras da educação especial, avisada que teria um aluno cego na turma do 6º ano e convidada a participar de atividades de formação que mudariam o rumo do ano letivo.

A ideia inicial da professora, de trabalhar com um protótipo de sítio arqueológico e leituras sobre a pré-história, foi alinhada à perspectiva da inclusão escolar. Elisangela fez formação específica em braile, o sistema de escrita tátil usado por pessoas cegas, e planejou com outras duas colegas o dia a dia de uma prática acessível à toda turma, de modo que os estudantes agissem com autonomia e norteassem as próprias decisões por princípios solidários e democráticos.

Construído de forma colaborativa entre Elisangela e as docentes Rosângela Kittel e Ruth Mary dos Santos, responsáveis pelo atendimento educacional especializado, o projeto “História nas pontas dos dedos: a acessibilidade ao conteúdo de pré-história” adaptou áreas do colégio para “saídas de campo” que complementavam o trabalho de sala de aula e ampliavam o conhecimento na matéria, seguindo a diretriz escolar de planejamento coletivo entre o professor de área e a educação especial.

“Minha ideia era desenvolver um (protótipo de) sítio arqueológico e vivenciar pintura rupestre com os alunos. Em pré-história, a gente trabalha com muitas imagens para fazer referências aos períodos. Pensei em como eu poderia me adaptar para que todos na sala entendessem as atividades”, lembra Elisangela. “As outras professoras me ofereceram formação especializada e iam para a aula comigo para me auxiliar com os estudantes, dependendo da atividade proposta”, conta.

Na concepção das atividades, a professora se baseou no conceito de desenho universal para a aprendizagem para criar experiências educacionais que funcionassem para todos e, ao mesmo tempo, fossem ajustáveis a necessidades individuais. Com material adaptado e uma máquina de braile, o estudante com deficiência visual, de 11 anos, lia e escrevia com fluência e era apoiado por colegas e pela professora com o ditado do conteúdo passado para o quadro. “(O projeto) Não foi algo pensado só para este aluno. A gente partia de algo que todos tivessem acesso”, diz Elisangela.

No planejamento coordenado com as colegas de educação especial, a professora repassava o que pretendia trabalhar para ter o suporte necessário para as atividades. Recebia impressos em braile dos textos que seriam estudados, ouvia orientações sobre os tipos de materiais que poderiam ajudá-la a ministrar determinado conteúdo e alinhava situações em que precisaria de um auxílio pessoal, em especial quando usava espaços da escola para produzir conhecimento. “Os alunos ficam muito empolgados com atividades que não envolvem só livro e sala de aula”, diz Elisangela. “Trabalhei com duas turmas do 6º ano. Naquela que tinha inclusão havia mais colaboração entre os alunos e o rendimento e a aprendizagem deles foram muito bons, acima da média.”

Em uma das práticas, a professora orientou a elaboração de um painel tátil inspirado em pinturas rupestres. Após explicar o que significava este tipo de representação e o modo de vida dos homens pré-históricos, dividiu a turma em grupos para trabalhar melhor os subtemas, descreveu de forma detalhada as imagens exibidas em sala e deixou que os estudantes escolhessem os desenhos que fariam. Na hora da construção coletiva sobre papel pardo, criou uma textura à base de massa corrida e areia que realçava a figura representada, deixando-a em relevo e acessível ao toque dos dedos.

O aluno cego teve auxílio da professora de educação especial e também de colegas de sala para entender os desenhos, participou das escolhas, pôs a mão na massa e soube diferenciar as pinturas de seus contornos. “Ele participou de todo o processo”, afirma Elisangela. O painel foi exposto no corredor cultural da escola.

Quando abordou os períodos da pré-história, a professora introduziu o que seria uma “expedição arqueológica” e levou à sala de aula objetos relacionados ao paleolítico, ao neolítico e à idade dos metais, incentivando o aprendizado lúdico. A ideia era que os estudantes conhecessem o que fosse possível pelo tato: compararam pedra lascada e pedra polida, tentaram produzir faíscas (descoberta do fogo), manusearam gravetos, arco e flecha, pratos e colheres de metal, além de peças de cerâmica com inscrições rupestres em baixo relevo do acervo pessoal de Elisangela.

No final do projeto, objetos representativos de períodos diferentes da pré-história foram enterrados sob um pequeno bosque da escola para a reprodução do sítio arqueológico. O sambaqui, um depósito de conchas que é base para pesquisas do homem pré-histórico, foi representado por conchas cedidas pela professora de ciências. Elisangela deixou o terreno acessível e o demarcou com pedaços de madeira, dividindo-o em quadrantes. Os estudantes tinham que explorar a área ao modo dos arqueólogos, com pás e pincéis, para buscar vestígios dos “artefatos”. “Depois que encontravam, eles tiravam o objeto e analisavam”, diz a professora.

A atividade serviu como um fechamento para a prática. “Distribuí, como avaliação, uma folha com os quadrantes para eles indicarem qual objeto foi encontrado em qual quadrante. Eles escreviam e desenhavam nessa folha e também respondiam oralmente perguntas que eu fazia. A conversa era para eu perceber o conhecimento adquirido durante esse processo”, detalha Elisangela.

O projeto foi realizado durante o primeiro semestre, mas houve um desdobramento fora deste período. No final do ano, a professora superou dificuldades logísticas para organizar uma visita pedagógica com o objetivo de conectar o aprendizado à realidade local. “Florianópolis tem muita oficina lítica e locais com inscrições rupestres, como a praia do Costão do Santinho. Em um primeiro momento, a gente não conseguiu levá-los porque não tinha ônibus, mas depois deu certo. Inclusive lá tem um painel tátil e a gente conseguiu sentir as inscrições em relevo”, relata Elisangela.