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Caso 30: O autocuidado como necessidade (Competência 8)

12/set/2018

Professora
: Alessandra Aparecida Neves
Quem é a professora: Formado em letras, com mestrado em literatura portuguesa, brasileira e luso-africana, leciona há 15 anos na rede municipal e na escola. Foi o vencedor do Rio Grande do Sul, na etapa dos anos finais do ensino fundamental (6º a 9º anos), na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.
Escola: Escola Estadual Presidente Tancredo Neves
Municipio: Dourados UF: Mato Grosso do Sul
Etapa de ensino: Ensino Fundamental - Anos Finais
Ano: 2017
Área de conhecimento: Linguagens
Componente curricular: Língua Portuguesa

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O autocuidado como necessidade

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Com a ajuda de psicóloga, professora de português sistematiza atividades para debater temas como depressão e suicídio com turma do 7º ano, provocando reflexões por meio de interpretações de produções artísticas

Quando o “desafio da baleia azul” começou a se disseminar nas redes sociais e surgiram as primeiras notícias de suicídios de jovens relacionados às violentas tarefas a cumprir no “jogo”, a história virou assunto entre os pré-adolescentes da turma de 7º ano em que lecionava a professora de língua portuguesa Alessandra Aparecida Neves, de 40 anos, em Dourados, no Mato Grosso do Sul.

Inicialmente sem saber ao certo do que se tratava, a professora deu atenção ao tema em conversas informais durante as

atividades em sala de aula e, ao saber que o desafio proposto pela internet estava ligado a lesões autoprovocadas pelos jovens, sinais de estados depressivos, veio um alerta: havia estudantes na turma que jogavam.

Após conversar com uma psicóloga que prestava atendimento a jovens do período noturno, em programa voltado à Educação de

Jovens e Adultos, Alessandra decidiu desenvolver, em meados do primeiro semestre de 2017, uma prática que estimulasse os seus alunos do 7º ano a reconhecerem as próprias emoções, e também as dos outros, para que fossem capazes de lidar com elas.

O projeto “Sem tristezas constantes, sem cortes, sem mortes precoces, entender para compreender-se” durou de maio a

julho daquele ano e culminou, em agosto, com um bate-papo orientado da psicóloga que deu suporte à prática com a turma, no qual alguns estudantes pediram ajuda e foram encaminhados ao Cras (Centro de Referência de Assistência Social), porta de entrada da assistência social no serviço público.

“Quando começamos a falar sobre o ‘baleia azul’, percebi que alguns alunos sabiam mais sobre o jogo e até jogavam...

Eles trouxeram imagens de jovens que tinham feito cortes em formato de baleia pelo corpo”, conta Alessandra. “A ideia não era trabalhar o jogo, mas o sentimento que estava ligado a ele, a depressão. Usar a disciplina para trazer textos clássicos que trabalhavam essa questão”, relata.

A professora se inspirou na “Estética da Recepção”, ou “Teoria da Recepção”, para estruturar a prática, buscando

produções artísticas que fizessem sentido e levassem os alunos ao entendimento de mensagens-chave. Tal teoria sustenta, em linhas gerais, que um texto literário ou artístico ganha outros significados a partir da relação com quem o recebe, da experiência e do repertório dos leitores ou da plateia.

Alessandra envolveu no projeto leitura, compreensão, interpretação e produção textual, iniciando com uma análise do

videoclipe e da letra da música “Bring me to life” (“Traga-me para a vida”), da banda norte-americana de rock Evanescence.

“Pedi que fizessem análise do clipe, daquele sentimento de angústia e de tristeza. Comecei com a música e depois fiz propostas literárias desse sentimento excessivo... Foi um trabalho de interpretação e compreensão”, afirma Alessandra.

Na mesma linha, foram trabalhados a novela romântica “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, a peça teatral “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, e o filme brasileiro “Inocência”, baseado no romance de Visconde de Taunay. A turma,

de 39 alunos, foi dividida em seis grupos e orientada pela professora a fazer pesquisas sobre depressão, suicídio, o desafio da baleia azul, entre outros temas, todos relacionados aos sentimentos que afloravam das obras utilizadas em sala de aula.

“Em cima da estética da recepção, você tenta aproximar a obra desse sujeito que está trabalhando com ela, focando a temática. Assim consegue fazer esse sujeito ler uma história do Século 19 e trazê-la para o momento dele”, diz Alessandra. “Para trabalhar essas obras com eles, muito jovens, tive que dar o respaldo.”

Ao encaminhar os temas para os trabalhos em grupo, a professora tomou o cuidado de repassar o assunto de acordo com o conhecimento prévio que tinha dos estudantes, sem fazer sorteio e evitando que alunos já emocionalmente envolvidos com o

desafio da baleia azul, por exemplo, fossem pesquisar sobre esse tema. “A intenção não era deixá-los em situação constrangedora, mas ajudá-los”, afirma Alessandra.

Na apresentação das pesquisas, a sala de aula foi preparada para um “café-viagem”, com sucos, café, salgados e doces

providenciados pela escola ou levados pela turma. Na ocasião, os grupos foram posicionados em locais específicos da classe para que os estudantes pudessem caminhar pelo espaço para a troca de experiências. Cada conjunto tinha um “guia”, que dava as boas-vindas aos colegas que se aproximavam, e um “anfitrião”, que compartilhava os conhecimentos e os resultados do trabalho.

A sequência das atividades resultou em microcontos com base na temática, uma produção textual dos alunos. “Eles pegaram

um pouco de tudo o que foi trabalhado, desde o dia da música até o compartilhamento no café-viagem, e fizeram minicontos que de alguma forma trouxessem a leitura”, diz Alessandra.

Durante o projeto, a professora passou a notar que alguns estudantes considerados “mais difíceis de lidar” davam sinais

de que precisavam de ajuda psicológica. Era o caso, por exemplo, de uma aluna que usava camiseta de manga comprida mesmo nos dias mais quentes de Dourados, um jeito de encobrir as cicatrizes dos cortes na pele que ela mesmo produzia. As lesões autoprovocadas intencionalmente são o principal fator de risco para o suicídio. “Muitas vezes, a família e a escola não percebem esses sinais e alguns acabam chegando naquele estágio”, afirma Alessandra.

Ao trabalhar o “baleia azul”, um desafio próximo à realidade dos adolescentes, a professora iluminou outras situações que levavam os alunos a atitudes agressivas ou comportamentos destrutivos, como estudantes que sofriam assédio ou tinham problemas familiares sérios e adolescentes que gostavam de colegas do mesmo sexo e ficavam tristes pois não sabiam lidar com a orientação homossexual.

“Reconheci duas meninas que se cortavam e não necessariamente era por causa do jogo. Depois da conversa com a psicóloga, entenderam que não tinham culpa, não estavam erradas e poderiam pedir ajuda”, diz Alessandra.

Desde o início do projeto, a mesa-redonda com a psicóloga estava prevista para ser a última parte da prática. No dia desse encontro, a profissional orientou os estudantes sobre os riscos envolvidos nas interações pela internet e os deixou à vontade para expor os próprios sentimentos, inclusive de forma reservada. Depois do bate-papo, ao tomar um café com a turma e em uma situação menos formal, ela foi abordada por adolescentes que pediram ajuda e foram ouvidos individualmente.

Alguns foram encaminhados ao Cras para acompanhamento especializado, fato que foi comunicado às respectivas famílias. “É essencial que a escola tenha uma psicóloga que se disponha a falar sobre o assunto com eles”, afirma Alessandra.