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Caso 8: A África me representa (Competência 8)

12/set/2018


Professora:
Márcia Theodorico Mezzomo.
Quem é a professora: Formada em pedagogia, com pós-graduação em educação infantil, leciona na rede municipal desde 2003 e na escola desde 2009. Foi destaque estadual de Santa Catarina, na etapa creche, na 10º edição do Prêmio Professores do Brasil e recebeu o prêmio da 6º edição do "Professor Nota Dez", da Prefeitura de Florianópolis.

Escola: Creche Morro da Queimada
Municipio: Florianópolis. UF: Santa Catarina
Etapa de ensino: Educação infantil-creche

Ano: 2016
Área de conhecimento: -
Componente curricular: -

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A África Me Representa caso8_banner

Creche localizada em morro de Florianópolis desenvolve temática afro ao longo do ano em proposta que trabalhou a questão da representatividade da criança negra em parceria com a comunidade

Os fortes laços da comunidade do Morro da Queimada, em Florianópolis, com a cultura afro-brasileira levaram a professora Márcia Theodorico Mezzomo, de 41 anos, a desenhar em 2016 um projeto pedagógico para levar esse traço da realidade local às crianças da creche municipal em que trabalha no morro da capital catarinense.

Naquele ano, à frente de uma turma de 17 alunos com idades entre 3 e 4 anos, metade deles negros, a professora usou os seus conhecimentos, em parte derivados dos cursos de formação feitos com uma pesquisadora especialista na temática, e o repertório sociocultural de suas duas auxiliares de sala e de sua substituta, todas negras, para construir uma proposta com o foco no autoconhecimento e no autocuidado.

O projeto “Do rei do fogo ao rei do samba: rainha e rei da África eu sou” levou às crianças atividades que combinaram mitologia africana (Xangô, o rei do fogo) à música da escola de samba “Os Protegidos da Princesa”, cujo intérprete Alan Cardoso (o rei do samba) é uma das figuras mais conhecidas do Morro da Queimada.

Para contar as histórias do rei negro que dominava o fogo e os trovões, a professora usou uma enorme pedra na área externa da escola para erguer o cenário de que precisava para mostrar, entre outros “efeitos especiais”, a entrada em erupção de um vulcão feito de argila. “Usamos a literatura do Reginaldo Prandi para contar a lenda do rei Xangô e trabalhar a questão da cultura africana. Tive que ler bastante, estudar e elaborar para saber como contar as histórias e conquistar as crianças”, lembra Márcia.

As histórias em torno de um orixá (Xangô), embora fossem despidas do caráter religioso, geraram questionamentos, em especial quando duas bisavós nativas do morro foram convidadas a interagir com os estudantes. Uma das bisavós tinha um terreiro de umbanda e trouxe instrumentos musicais, tocados pelo pai e pelo tio de uma aluna, em um encontro com troca de experiências entre os mais velhos e os mais novos. “Teve resistência. Acharam que a gente estava trabalhando a questão da religião. Não estávamos. Até conseguir engrenar (o projeto), tivemos que sentar e explicar algumas vezes que o foco era a questão cultural”, afirma Márcia.

Os esclarecimentos sobre o projeto também foram feitos nas reuniões com os pais. Quando o questionamento partia de um deles, a professora ressaltava a valorização da diversidade e a educação para as relações étnico-raciais e evocava a lei federal 10.639, de 2003, que incluiu história e cultura afro como temática educacional.

Aos poucos, as resistências foram vencidas. Em julho, durante entrega de relatório de desenvolvimento da criança, foram registradas em vídeo falas elogiosas dos pais sobre o trabalho com a cultura africana. Os filhos estavam levando as brincadeiras da escola para casa e se passavam por heróis negros. O rei do fogo, o rei do samba e a princesa negra entravam para o vocabulário e para o imaginário deles.

Para a professora, um dos principais resultados foi ver a criança reconhecer sua origem e valorizar mais a cultura afro. Os alunos se identificaram com o projeto e gostaram do que reconheceram. “As famílias foram parceiras, presentes. Não foi dado muito enfoque ao preconceito. Quis mostrar o lado da representatividade, uma imagem positiva. O projeto trabalhou muito com essa questão da representatividade da criança negra para que elas não tivessem só contato com heróis brancos”, relata Márcia.

No segundo semestre, os próprios alunos convidaram o intérprete da escola de samba do morro, Alan Cardoso, por meio de mensagem via smartphone. Voz da agremiação da comunidade no Carnaval, ele visitou a creche acompanhado da porta-bandeira e foi sabatinado pelos estudantes, que também brincaram com a porta-bandeira, cantaram o samba-enredo e até imitaram o grito de guerra do sambista.

Como parte da prática, as crianças também apresentaram a peça “Princesa Negra” durante o festival Afro Divas, realizado no palácio Cruz e Sousa, sede do Museu Histórico de Santa Catarina. Ao final do ano, cada uma relatou o que aprendeu. As imagens registradas durante o projeto na creche Morro da Queimada ilustraram a matriz curricular municipal que orientou os professores da rede sobre a temática.

“A resistência (à temática afro) é também falta de preparo por parte da gente, de achar que não existe preconceito ou não existe racismo. Quanto mais cedo for trabalhada, desde a criança pequena, melhor”, diz a professora Márcia. “É importante não desistir quando vier uma dificuldade e estar preparado para dialogar e explicar o trabalho.”