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Caso 9: Antídoto contra o preconceito (Competência 9)

12/set/2018

Professora: Lorena Bárbara Santos Costa.
Quem é a professora: Formada em pedagogia, história e letras, leciona na rede municipal e na escola há 11 anos. Foi a vencedora da Bahia e da região Nordeste, na etapa dos anos iniciais do ensino fundamental (4º e 5º anos), na 10ª edição do Prêmio Professores do Brasil.

Escola: Escola Municipal Deputado Gersino Coelho
Municipio: Salvador UF: Bahia
Etapa de ensino: Ensino Fundamental / Anos Iniciais

Ano: 2016
Área de conhecimento: Ciências Humanas
Componente curricular: História

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Antídoto contra o preconceito

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Professora aproveita centenário do samba para desconstruir intolerância racial e religiosa dos estudantes aproximando a origem africana do gênero musical da realidade cultural do povo baiano

No centenário do samba, em 2016, a professora Lorena Bárbara Santos Costa, de 40 anos, sentiu a necessidade de aproveitar a efeméride de forma pedagógica e percebeu que, ao valorizar a vertente regional do gênero musical de raízes africanas, poderia construir uma prática que exercitasse a empatia dos estudantes, promovesse o diálogo entre eles e o respeito ao outro dentro de uma escola municipal de Salvador enredada por conflitos, parte da rotina de comunidades carentes da capital da Bahia.

Negra, como cerca de 80% dos seus alunos, e com três graduações, entre as quais história, a professora usou o projeto “Vem sambar e aprender: o samba como instrumento de resistência e representação da cultura afro-brasileira” como antídoto à prática frequente do bullying que a incomodava nas duas turmas de 5º ano em que lecionava. Ofensas de cunho racista, baseadas no tipo de cabelo ou na cor da pele, eram comuns no dia a dia e partiam até de estudantes afrodescendentes de pele mais clara, que não se reconheciam como negros.

“Os alunos brigavam muito, entravam em atrito físico e muitas crianças agredidas se machucavam. As agressões chegavam a tirar sangue, deixar hematoma... Trabalhamos com questões do corpo, do toque e da afetividade por meio do projeto”, relata.

Como parte das ações de bullying tinha como assunto religiões de origem africana, como o candomblé, o respeito a questões de religiosidade também precisou ser trabalhado pelo projeto, o que gerou mais dificuldades para desenvolvê-lo.

“Havia muito preconceito dos alunos com o candomblé. Eles se referiam a alguns professores seguidores da religião como ‘macumbeiros’ e também faziam bullying com colegas. Temos estudantes que moram em terreiro de candomblé... Tinha muito preconceito dentro da escola e a ideia era trabalhar o samba para explorar esses conteúdos”, relata Lorena.

Cinco famílias evangélicas chegaram a proibir a participação dos filhos em sambas de roda, na oficina de dança e nas outras atividades relacionadas ao folclore africano. Esses estudantes só assistiam às aulas teóricas, em sala. No decorrer do ano, com os esclarecimentos feitos aos pais sobre os objetivos da prática, só uma família manteve a proibição, mesmo ciente que o projeto estava inserido na proposta pedagógica escolar e na Lei 10.639/03, que incluiu história e cultura afro como temática na educação.

“Não era para aprender religiosidade na escola, mas para respeitar as diferenças. Não estávamos trabalhando religião, mas currículo. Precisamos dialogar, mostrar que a gente não estava contra a perspectiva familiar e não buscava criar um sambador. Trabalhamos a perspectiva de ser diferente do outro. Foi um processo muito árduo de construção”, lembra a professora. “O apoio de muitas famílias foi fundamental.”

A pesquisa feita por Lorena enriqueceu as atividades. A cantora e historiadora Juliana Ribeiro, especializada em ritmos de origem africana, levou à escola a música “Preta Brasileira”, em que aborda a dificuldade de aceitação social do cabelo da mulher negra, e discutiu bullying. Outra artista baiana, Clécia Queiroz, formada em dança afro, realizou uma oficina de expressões corporais do samba chula, um tipo de samba de roda do Recôncavo Baiano no qual são entoadas poesias musicadas por cantadores.

A etnomusicóloga Katharina Doring, que havia elaborado naquele ano a “Cartilha do Samba Chula”, cedeu ao projeto um exemplar de seu trabalho. O resgate do samba da Bahia, ao longo das atividades, foi todo permeado por aspectos da história e da cultura afro, como a trajetória de resistência das comunidades quilombolas. A capoeira e a culinária africana também foram temas de oficinas.

“A partir do projeto, todos compreenderam a sua identidade, a sua origem. Trabalhei muito o ‘quem sou eu’, ‘quem é minha família’, ‘o que é ser negro’. Os estudantes perceberam que têm famílias com formações diversas”, diz Lorena.

Ao final de nove meses, o projeto obteve ganhos sensíveis. Os alunos se mostraram mais abertos à diversidade, ampliaram o entendimento sobre a própria identidade e a história de vida da família e do outro. Como consequência, houve redução das manifestações de intolerância no ambiente escolar.

“Os estranhamentos entre eles deixaram de ser pela cor da pele, pelo cabelo ou pela religião”, relata a professora. “Eles vivem em locais com violência, presenciam a morte de pessoas, têm a agressividade aflorada. A escola é o espaço para vivenciar outras coisas, fazer o diferente e atenuar esses fenômenos, um espaço de acolhida.”