Educação

Cuidado, professor e aluno – o tripé para a retomada das aulas

Por Heloisa Morel
*publicado originalmente no jornal Correio Braziliense em 01/02/21


Já não é novidade que a realidade da educação mudou muito em 2020. Aulas online do jeito possível, aulas presenciais para poucos (e apenas no fim do ano), zero aula para muitos.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid (Pnad Covid-19), do IBGE, cerca de 7 milhões de crianças, adolescentes e jovens em todo o país ficaram mensalmente sem qualquer acesso a atividades de ensino no ano passado. Uma situação para lá de preocupante, que se soma aos que tiveram alguma atividade escolar, mas nada ou pouco aprenderam. Chegamos em 2021, a pouco menos de um mês do retorno às aulas, presenciais ou ainda online. É o momento de colocar em prática o que se sabe, com base em resultados empíricos, para recuperação do aprendizado dos alunos. E a palavra-chave para esse esperado avanço é “professor”.

Como protagonista de qualquer sistema de ensino de qualidade, o professor teve em 2020 um ano de reinvenção em todo o mundo. Foi obrigado a reorganizar sua vida, sua rotina, e aprendeu, do dia para a noite, a lidar com ferramentas até então pouco conhecidas, sobretudo no que diz respeito ao uso da tecnologia. Se lá em março de 2020, no começo da pandemia, o educador brasileiro enxergava a tecnologia como um desafio, no fim do ano a reconheceu como aliada. Essa mudança foi verificada pelo Instituto Península, que acompanhou ao longo da pandemia as angústias, medos e conquistas dos docentes de todo o país, por meio de quatro fases da pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil”.

Segundo a pesquisa, 44% dos professores brasileiros acreditam que, no futuro, a educação será no modelo híbrido. Outros 54% ainda creem que a educação deve ser unicamente presencial e 2% apostam no sistema online. Eles ainda se mostram bastante preocupados com o aumento da desigualdade entre os alunos mais pobres e os que têm mais condições financeiras e com a evolução do aprendizado dos estudantes no modelo online.

Durante a pandemia, a desigualdade educacional aumentou significativamente em nosso país. Crianças e adolescentes ficaram quase 10 meses fora das escolas e, quanto mais tempo longe, maior a chance de evasão escolar e menor o aprendizado. Com isso, perdermos também, como país, a oportunidade de desenvolver nossas futuras gerações. É por isso que defendo a volta às aulas presenciais, de maneira planejada e com toda estrutura de segurança sanitária para alunos e educadores. Temos que iniciar o quanto antes o trabalho de recuperação da aprendizagem de milhões de crianças e jovens. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), principal instituição que defende os direitos universais das crianças, pediu em carta aberta para que prefeitas e prefeitos eleitos em todos os municípios brasileiros priorizem a reabertura segura das escolas. O Unicef é claro: além de dar início ao novo ano letivo, é essencial ir atrás de cada estudante que não teve acesso às aulas na pandemia. Oferecer uma Educação de qualidade é garantir os direitos básicos de crianças e adolescentes e não podemos deixar ninguém para trás.

Neste sentido, as Secretarias de Educação e escolas precisam desenhar iniciativas de avaliação dos alunos, reforço e acolhimento e, sobretudo, garantir que eles não desistam de estudar. Também é nosso papel, como sociedade, insistir para que não haja uma desistência em massa. Todos devemos realmente tratar a educação como prioridade neste ano. Por isso também sou a favor de medidas que reforcem a transparência e frequência na comunicação das Secretarias com os profissionais de educação e com as famílias. A disseminação de informações corretas e a execução de todos os protocolos sanitários e de segurança devem ser direcionados para minimizar ao máximo o risco de contaminação e, consequentemente, uma possível insegurança dos profissionais das redes e das próprias famílias.  

Assim como a urgência da volta às aulas presenciais, cercada de todos os cuidados para um ambiente seguro, prioridade também deve ser a vacinação dos professores contra a Covid-19. Esses profissionais estarão em contato diário com dezenas de crianças e suas famílias, logo,  é complementar garantirmos o quanto antes que os mais 2 milhões de professores brasileiros estejam vacinados rapidamente.

Está definido um caminho sem volta. Além da necessidade de infraestrutura e conectividade, que são enormes gargalos a serem superados no Brasil, mostra-se essencial um investimento na formação e desenvolvimento dos professores sob a ótica da nova realidade. A adoção do ensino híbrido não se trata da simples digitalização das aulas tradicionalmente conhecidas, mas uma nova experiência de aprendizagem que demanda novas técnicas e habilidades, desde a personalização da aprendizagem com ao engajamento e protagonismo cada vez maiores dos alunos.

A pandemia deixou claro o quanto os professores são essenciais e quão complexo é esse ofício.

Este é o momento para a criação de políticas públicas estruturantes e sustentáveis que pensem no professor como um profissional que deve ser valorizado, oferecendo condições de trabalho e carreira estruturadas. Precisamos, ainda mais, desenvolver nossos docentes de maneira contínua e adequada a fim de atender a complexidade do mundo atual. Acolher os professores sempre foi necessário. Agora é fundamental, uma obrigação. O Brasil precisa desenvolver seus educadores para que eles desenvolvam seus alunos, ou melhor, o futuro do Brasil.

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