Em Shanghai, carreira do professor é pensada como um ofício em constante aprendizado

Por Natalia Puentes, coordenadora de projetos do Instituto Península

Em outubro, fomos convidados para participar da 3ª edição do Belt and Road Shanghai Autumn Study Project, na China. O evento, organizado pelo Centro de Pesquisa de Estudos Comparados em Educação da Universidade de Shanghai com o apoio da UNESCO e do Ministério de Educação da China, teve como tema “Políticas Públicas e Prática: Desenvolvimento Profissional de Docentes”.

Para integrar esse projeto de duas semanas, foram selecionados 35 participantes de 22 países diferentes. 13 das organizações convidadas apresentaram suas perspectivas sobre formação de professores, desenvolvimento profissional, assim como desafios e tendências na Educação pública de países como Rússia, Mianmar, Tailândia, Estados Unidos, Maldivas, Chile, Peru, República Checa e Canadá.

Muito se falou do “milagre de Shanghai” e do “segredo chinês” na Educação. Não há milagres, e sim uma coerência impecável entre o que querem ser como nação e a organização pública para alcançar esse objetivo. Desde o final da década de 70, a política pública de Educação é consistente e, ao longo desses 40 anos, foi criado o formato de ascensão na carreira do professor com base em avaliações anuais e participação ativa em grupos de pesquisa por escola. Já a parte operacional das escolas passaram a ser organizados com o apoio do setor privado, para evitar que os processos complementares da infraestrutura tirassem os docentes e diretores do foco do pedagógico.

Ao olharmos o recorte do professor nesse sistema, Shanghai nos mostra um plano de carreira estruturado, com passos bem definidos de desenvolvimento e com evolução baseada em performance, avaliação e incentivos. A prática da sala de aula é de extrema importância e vem mostrando bons resultados – Shanghai lidera as posições iniciais do PISA há algumas edições. Após concluírem a universidade, os professores precisam garantir em 5 anos 360 horas de observação em sala de aula, a chamada prática de estágio probatório, que pouco avançou Brasil.  Após esse período, os docentes ainda devem assegurar mais 540 horas de observação por mais 5 anos, além de desenvolverem o pensamento crítico ao participarem de grupos de pesquisas sólidos que produzam conhecimento que resolva os desafios do seu cotidiano escolar. Os professores estão em constante aprendizado. Esses grupos de pesquisa se tornam por eles mesmos uma rede de apoio com foco no aprendizado dos alunos. Para se ter uma ideia da importância da formação continuada, a média individual de tempo destinado à aprendizagem é de 68 dias por ano, mais do que dois meses!

Durante o evento, os professores e pesquisadores da Universidade de Shanghai explicaram como têm solucionado questões que envolvem teoria e prática. Para isso, a estrutura de pesquisa por escola, garante que os docentes resolvam seus desafios, conversem e criem sua comunidade. E, desde a virada do milênio, passaram a incluir as habilidades socioemocionais, sempre com o cuidado para não ir na contramão das disciplinas de educação moral, importante e estratégica para o Partido e para a nação chinesa.

Representando o Brasil, nós do Instituto Península apresentamos “Uma Perspectiva Integral para Apoiar Professores em um Sistema Complexo”. Tivemos a oportunidade de falar sobre o regime de colaboração vigente no país e suas diversidades regionais e culturais que resultam nessa complexidade. Como o antropólogo Darcy Ribeiro bem estudou, a riqueza do nosso País está justamente no “povo brasileiro”. Porém, muitas vezes as políticas públicas não consideram os diferentes aspectos locais, com governos que costumam insistir em resolver tamanho dinamismo aplicando soluções de massa em contextos diferentes. Com essas soluções artificiais, os professores ficam em saia justa, em vez de ser, como no caso chinês, os que garantem a implementação da política pública de educação.

No que diz respeito aos professores, apresentamos a nossa última pesquisa (Retratos….) e pontuamos como 65% deles ainda sentem que a formação inicial é deficitária pela falta da prática em sala de aula, e, portanto, que a falta de ações resulta na sensação de solidão por parte desses profissionais. Refletimos que, independentemente dos desafios sistêmicos existentes, os caminhos para as soluções devem ser encarados como quando se enfrentam turbulências em um avião: antes de ajudar uma criança, o adulto precisa estar preparado. Na Educação, essa premissa está presente no conceito de desenvolvimento integral, no qual o docente trabalha primeiro suas múltiplas dimensões (mente, corpo, emoções e propósito), para depois estimular seus alunos a fazerem o mesmo. Nesse sentido, como pais, é necessário garantirmos a máscara de oxigênio. Como nação, precisamos entender o que os professores precisam para dar à Educação Pública a importância que merece como motor do desenvolvimento, tal como os chineses fazem.

Vale ampliarmos a nossa perspectiva e olharmos a China não só como uma ditadura.  Temos as lições a serem aprendidas sobre a implementação de políticas públicas. Eles mostraram que é possível garantir que a própria comunidade escolar seja responsável pela estrutura de desenvolvimento e estudo do professor, que ela aprenda com seus mentores e desenvolva soluções adequadas para as situações locais. Com professores que desenvolvam um repertório prático adequado e incorporado, é possível garantir métricas e avaliações para que todo o sistema se fortaleça e seja reconhecido.

Pensando nisso, tendo um olhar voltado para a Educação, duas palavras poderiam resumir a política pública de Shanghai: coerência e inovação. Eles também honram a história e a cultura próprias e foram incorporando avanços em medida calculada. Temos sempre que lembrar que os líderes chineses são, acima de tudo, estrategistas e estadistas. E, com essa visão de aprendizado, tirar as melhores propostas para aprimorar a realidade educacional brasileira.

Assim como a China, que desde 1977 está construindo um sistema com suas próprias características, não conseguiríamos construir um sistema “a la brasileira”? A resposta seria, como falou Darcy Ribeiro, basear esse sistema na principal fortaleza do país: o povo brasileiro. Assim, reconhecer soluções locais que potencializem as características, a diversidade do povo, aproveitando a coerência e inovação, que tanto almejamos em outros países, permitiria criarmos políticas públicas educacionais mais assertivas.

Em Shanghai, a Educação Pública de qualidade envolve aos professores, os incentiva e cuida. Eles autonomamente se enxergam como aprendizes eternos. Eles garantem que de fato a educação seja motor de desenvolvimento.

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