Educação

Saúde mental dos professores: por que precisamos falar sobre ela?

2021 foi um ano atípico, ainda com fortes reflexos da pandemia, mas com sinais de retomada

Assim como a saúde e a economia, a Educação foi um dos setores que sofreu fortemente com os impactos da Covid-19. Os professores, protagonistas do processo de ensino-aprendizagem, mantiveram-se firmes em seu propósito de educar crianças e jovens de norte a sul, mas não foi tarefa fácil. Além de todas as dificuldades do ensino remoto, condições nem sempre adequadas de acesso e contato com os alunos, os professores tiveram que lidar com um tema já conhecido, mas que veio à tona com ainda mais urgência: a saúde mental.

Há quase dois anos, precisamente 19 meses, os mais de 2,5 milhões de professoras e professores espalhados pelo Brasil, tiveram de lidar — de uma hora para a outra — com o fechamento das escolas e com a mudança em sua rotina de trabalho, além das questões inerentes à pandemia, que afetou toda a população com medo e insegurança. Agora, somados a esses desafios, as demandas particulares, compromissos pessoais e familiares convivendo sob o mesmo teto — fatores que por si só geram cansaço, estresse e ansiedade. E, quando falamos da profissão Professor, não podemos deixar de fora o ser humano que existe para além dos muros da escola.

Burnout, muito mais que cansaço

Desde o ano passado, o Instituto Península investigou mais de 2.100 papers científicos sobre a síndrome de Burnout no Brasil, analisando a experiência de mais de 4.500 professores entre 2003 e 2020. Esses estudos evidenciaram que ela já era uma realidade da profissão docente pré-pandemia e identificou ainda alguns dos motivos pelos quais ela acontece. Inclusive, foi observado que a saúde emocional dos professores é pior do que a saúde física, o que pode impedi-los de trabalhar.

A Síndrome de Burnout é um distúrbio de esgotamento profundo relacionado ao trabalho. Ela atinge muitos professores por ser comum em atividades que lidam com tarefas e demandas recorrentes, sob fatores incontroláveis e por um longo período. Outro fator que pode levar ao distúrbio diz respeito ao clima do ambiente de trabalho, o que chama a atenção, pois no contexto da pandemia, os educadores — com menos tempo para o autocuidado e muitos compromissos — ficaram ainda mais propensos à síndrome.

Professores precisam de apoio e acolhimento

O estudo “Desafios e Perspectivas da Educação: uma visão dos professores durante a pandemia”, desenvolvido pelo IP, que buscou detalhar e entender as angústias e as necessidades dos docentes, identificou que 57% deles gostariam de receber apoio psicológico e emocional, sobretudo para enfrentarem as questões impostas pela pandemia.

Professora há 20 anos, Rita Marcelino dá aula de Língua Portuguesa em uma escola da rede estatual de Juazeiro do Piauí/SE. Para ela, um dos maiores desafios foi conciliar os compromissos familiares com as necessidades dos alunos que, durante o período da pandemia, além dos horários das aulas, precisavam de outros espaços de interação para assimilarem os conteúdos. 

“Eu me vi diante do dilema de ensinar de forma remota, mas sabendo que não alcançaria a todos. Isso foi angustiante, mas eu me sentia no dever de fazer algo pelos meus alunos. A constatação de que muitos ficariam de fora do processo gerou um sentimento de impotência que foi crescendo cada vez que um novo estudante deixava de retornar às atividades”, relata a professora Rita Ferreira Marcelino. A preocupação de Rita vai ao encontro com outro dado da pesquisa, no qual revela que para 57% dos educadores o desafio está em recuperar a aprendizagem dos alunos, que foi impactada com o fechamento das escolas e com os obstáculos do ensino a distância.

A educadora também descreveu um sentimento que, para ela, reflete o desconhecimento coletivo em relação a atuação da profissão Professor: “Além de todo o esforço dispensado para oferecer aos meus alunos o melhor que conseguia, tive que lidar com a falta de credibilidade da sociedade em relação ao meu trabalho. Todo mundo queria me dizer o que ensinar e como ensinar”.

“Um professor que esteja enfrentando questões de saúde mental e emocional certamente terá menos condições de desempenhar o seu melhor no trabalho que desenvolve com seus alunos”, comenta Silvia Breim, coordenadora de conteúdo e formadora da Plataforma Vivescer, um espaço de trocas e aprendizagem feito por professores para professores, uma das iniciativas do Instituto Península.

É necessário refletir sobre as condições que os professores manifestam, tendo clareza de que para desempenharem bem as suas funções e garantir a aprendizagem das crianças e jovens, eles precisam, antes de tudo, estar bem como um todo. E apesar de todos os desafios, mesmo enfrentando todo o cansaço e falta de estrutura para trabalharem, professoras e professores se mostraram totalmente dispostos neste ano de pandemia. Cabe, agora, mobilizar comunidade escolar, estado e sociedade para pensarem em caminhos que ofereçam a aquele que educa o apoio e cuidado que precisa.

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