Educação

“Um olhar para os professores”

Nota do Instituto Península sobre os resultados do Ideb 2021

Na última sexta-feira, 16 de setembro, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o INEP, divulgou os resultados do Saeb e do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB 2021, que teve prova aplicada no final do ano passado, período em que muitas escolas de nosso país estavam na retomada do ensino presencial ou realizando apenas parcialmente estas atividades.

Segundo nota divulgada ontem pela ONG Todos pela Educação, esse contexto convida ao cuidado nas análises, especialmente as comparativas. Seja considerando que as taxas de participação notadamente mais baixas “podem significar uma seleção dos alunos avaliados, ainda que feita de forma não intencional pelas secretarias de Educação e escolas”, seja entendendo o impacto das políticas de aprovação no salto dos indicadores de fluxo, fica evidente a necessidade de um olhar absolutamente personalizado para cada rede.

Há, no entanto, um consenso em relação à queda nos níveis de aprendizagem, com especial preocupação para a etapa da alfabetização. Essa preocupação que agora se instala, justa e necessária, não pode nublar a necessidade de um olhar cuidadoso para os resultados de aprendizagem de alunos de todas as etapas de ensino, com atenção rigorosa para o que dizem e pensam aqueles que serão responsáveis por endereçar a questão nas salas de aula de nosso país e que, segundo evidências, são o fator intraescolar mais relevantes para a aprendizagem dos alunos: os professores. 

De acordo com a pesquisa“Retratos da Educação pós pandemia: uma visão dos professores”, realizada no primeiro semestre deste ano com professores de escolas públicas e particulares de todo o país pelo Instituto Península, apenas 11% dos professores acreditam que os alunos realizarão as aprendizagens esperadas para o ano letivo de 2022. A mesma pergunta havia sido feita em 2020, quando o índice foi de 26%, e em 2021, quando 14% tinham dito que seus alunos aprenderiam o previsto.

Outro ponto que chama a atenção nessa pesquisa, diz respeito a preocupação dos professores com a saúde emocional dos alunos, que se mantém alta e estável desde o início da pandemia. É de se imaginar que dois anos longe da escola não significaram, em nosso país, apenas a distância dos conteúdos escolares, mas da proteção social que a escola oferece a um número significativo de alunos.

Os resultados do IDEB apontam para a necessidade de continuarmos cuidadosos com esse longo e desafiador processo de “retomada” que precisa envolver os professores, suas percepções e necessidades na construção de soluções. Parece insuficiente acreditar que apenas as aulas de reforço – estratégia principal do maior número de redes para a recomposição das aprendizagens, segundo a pesquisa acima mencionada – poderá dar conta do desafio posto. São necessárias medidas de curto prazo, como espaços formativos multidisciplinares, atrelados aos desafios reais da retomada das aprendizagens: oportunidades para repensar o ensino de forma a endereçar tanto as questões relacionadas aos conteúdos disciplinares, como aquelas relacionadas às inúmeras outras questões apresentadas pelos alunos, que também precisam ser assumidas pelas escolas como conteúdo.

Não podemos ter um olhar parcial para a crise gerada pela pandemia, perdendo a oportunidade de não apenas tratar consequências, mas resolvendo questões estruturantes que podem nos fazer mais preparados para enfrentar uma possível nova adversidade. Grandes crises são janelas de oportunidade para grandes transformações.

Entre estas medidas estruturantes necessárias está, com absoluta prioridade, a reestruturação das carreiras do magistério, não apenas do ponto de vista da remuneração, mas especialmente de condições de trabalho adequadas. Vale ressaltar a importância de observação de aspectos bastante objetivos, como a garantia de dedicação exclusiva a uma única escola e de tempo para o trabalho colaborativo e formação continuada como também de condições subjetivas, como autonomia e autoria. Outro ponto relevante quando pensamos em professores e nos desafios pós-pandemia é a oferta de uma carreira que garanta diferentes e contínuas oportunidades de desenvolvimento profissional que enderecem os reais desafios das salas de aula. 

Que pese o fato de que em nosso país a carreira de professor não recebe o prestígio social devido e este é outro aspecto a ser observado e corrigido, uma vez que a quase totalidade do mérito pelas aprendizagens possíveis nesse período tão desafiador que atravessamos pode ser atribuído aos professores e professoras brasileiros.  

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